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terça-feira, 9 de abril de 2013
Carta à Igreja em Esmirna - Apocalipse 2.8-11
segunda-feira, 18 de março de 2013
TUDO CERTO, PORÉM...
"Conheço as suas obras: o seu trabalho árduo e perseverante, que não podes suportar homens maus... e tem suportado sofrimento por causa do meu nome. Tenho, porém, contra você o fato de ter abandonado o seu primeiro amor." (Ap 2. 2-4)
Em tempos de escassez de tempo e de energias gastas com a correria em busca do último item de consumo em exposição no mercado, ter uma comunidade caracterizada pelo labor constante dos seus membros, é um imenso privilégio. Noutros tempos a Igreja em Éfeso era assim.
Em dias de frenesi constante na busca pelo guru da moda não importando se ele ou ela fala em total dissonância em relação à Palavra de Deus, ter uma comunidade de gente sóbria, ponderada e que tem a coragem de se recusar a aderir à tendência, é um grande avanço. Noutros tempos a Igreja em Éfeso era assim.
Em época de hedonismo desenfreado e de farta disseminação do conceito de que sofrimento é pecado, ter uma comunidade que descobriu que o sofrimento decorrente da perseguição por manter firme sua confissão de fé, deve ser visto como privilégio, é uma grande bênção. Noutros tempos a Igreja em Éfeso era assim.
Mas existia um “porém” que transformava todas as qualidades em defeitos, bênçãos em maldições, o elogio em reprimenda, a celebração em lamento, o doce em amargo, o riso em pranto, o dia em noite. Faltava a essência do ser divino, a realidade maior e que a tudo deve permear e impregnar. Faltava a capacidade de abrir-se para o outro, mesmo que ele pense e aja diferente de mim. Faltava a capacidade de discordar e não aderir sem, contudo, declarar guerra e constituir inimizades. Faltava o elã que marca a experiência do deslumbramento ante o desejado.
“Tenho, porém, contra você o fato de ter abandonado o primeiro amor”. Que expressão bela e cortante, poética e confrontadora que o texto sagrado usa para descrever a experiência do divórcio sob o mesmo teto. Aliás, essa metáfora da relação conjugal para referir-se ao relacionamento entre Deus e o seu povo é farta no livro do Apocalipse. Como ele descreve com perfeição o que acontece muitas vezes em nossa caminhada com Deus. Conheço inúmeros casais que já se divorciaram mas ainda vivem sob o mesmo teto. E não pense que falo de convivências infernais, de arranjos sociais, ou manutenção de aparências. Falo de casais que se respeitam, são fieis, cumprem com os reclames sociais da vida matrimonial e constituem belas famílias, mas perderam o primeiro amor.
A igreja em Éfeso tá para o relacionamento de Deus com o seu povo como homens e mulheres estão para o casamento descrito acima. O que, a princípio, foi elogiado e poderia alavancar uma comunidade relevante, acabou por transformar aquele grupo num ajuntamento de pessoas áridas e desprovidas de alegria pela vida. O labor constante da comunidade, se transformou em ativismo vazio e extenuante, por falta de amor. A fidelidade doutrinária e firmeza teológica, se transformaram em fundamentalismo impiedoso e perseguidor do discordante, por falta de amor. A capacidade de resistência e de sofrer pelo nome do Senhor se transformaram em masoquismo espiritual e em estoicismo que desembocaria em autoflagelação, por falta de amor.
A receita não guarda surpresas. Voltar ao ponto onde o desvio ocorreu e refazer a rota. Só assim é possível reviver o primeiro amor. Não adianta tentar o conserto a partir de onde estamos, só há uma possibilidade: volte ao início e trilhe outro caminho. O caminho proposto por Deus. O caminho pavimentado pelo amor e que mantém vivos o ardor e a volúpia, o desejo e o tesão. Caso contrario, todos os esforços serão destituídos de sentido, pois se não tiver amor serei como “o bronze que soa ou como o címbalo que retine...”.
AFA Neto
segunda-feira, 11 de março de 2013
A DERRADEIRA CARTA - Apocalipse 1. 9-20
Foi João quem mandou. Tomei um susto quando o carteiro me entregou aquele envelope. A visita dos Correios em minha casa era para fazer entregas de encomendas como Tênis, livros, aparelhos eletrônicos ou coisas desse tipo. Mas uma carta!? Nem me lembro da última vez que recebi uma carta. Ainda ontem mandei e recebi vários emails, enviei e recebi alguns sms e screps, mas fazia muito tempo que alguém me mandava uma carta; e ainda mais escrita a mão. Mas era de João e aos poucos as coisas foram fazendo sentido. O discípulo amado estava distante e pra falar a verdade, eu nem sabia se onde ele estava tinha essas coisas de computador e internet. A última notícia que tinha recebido dele dava conta de que fora obrigado a se mudar para bem distante dos lugares que se sentia em casa, só para poder sobreviver. Não fora para Patmos por vontade própria, mas obrigado pelos ditames de um sistema que rouba das pessoas a sua dignidade pois só valoriza os teres. Havia se recusado a se curvar diante do capital transformado em deus e agora não lhe restara outra alternativa senão ficar exilado naquela ilha inóspita.
Mas o seu coração nunca conseguiu se sentir em casa em Patmos. Seus pensamentos vagavam entre gente que ele aprendeu a amar e a cuidar nas comunidades que ajudara a organizar no continente. Era lá, nas pequenas igrejas formadas por gente simples e devota, que João gostava de passar seu tempo. Era entre esse povo, ensinando a transformar ensinamentos em sabedoria para ser vivida, que o irmão João se sentia parte da verdadeira história. Aquela história contada por Deus e que muitas vezes nós não conseguimos entender direito. Pois bem, o discípulo amado tinha uma inclinação especial para enxergar aquilo que a dor e o sofrimento faziam desaparecer de diante dos horizontes dos demais. No fundo, ele sabia que fora Deus que o dotara com essa sensibilidade para ajudar o seu povo a ver o que as agruras tinham encoberto. Por isso ele resolveu escrever aquela longa e reveladora carta.
Entretanto ele sabia que precisava usar uma linguagem que fosse fiel aos valores que ele precisava ajudar a preservar. O deus deste século tinha condicionado todos a entender e a valorizar somente coisas que despojam o ser humano de sua plena humanidade conforme criada por Deus. A linguagem era a do consumo e da utilidade e João sabia que isso vai na contra-mão do que ele e o povo precisavam para cruzar esse mar bravio e chegar em paz na outra margem. Então ele resolveu falar com imagens. Ele sabia que a imaginação é mais poderosa do que qualquer compendio de táticas revolucionárias. E foi assim que o discípulo amado mergulhou em um universo onírico usando abundantemente figuras do texto sagrado do povo, conhecido como Antigo Testamento.
Quando comecei a ler, confesso que senti um pouco de dificuldade. Então percebi que estava começando a me tornar refém da divindade deste mundo, pois me afastara dos referenciais que fizeram parte da minha história. Um mar que se abre para libertar um povo sofrido, um Deus que fala como voz de muitas águas, um ser que aparece resplandecente com cabelos brancos como a neve, um Messias que tem uma predileção por ser chamado de Filho do Homem. Meu Deus, onde eu tinha escondido isso dentro em mim? Um lugar ornamentado com candelabros de ouro onde alguém vestido de forma majestosa caminha por entre estes utensílios e um universo repleto de seres estranhos à nossa cultura tecnológica. Parei um pouco atordoado e fiquei em silêncio por um tempo. Depois fiz uma prece e voltei à leitura. De repente as coisas começaram a fazer sentido. Aos poucos percebi que um véu era retirado destas coisas e eu podia olhá-las com clareza. Era a tal Revelação da qual João estava falando.
Pude entender que essa história marcada pela contradição e pelo sofrimento só pode fazer sentido se vista sob a ótica daquela outra história contada por Deus e que só pode ser percebida se estivermos na dimensão do seu Espírito. Por isso o discípulo amado pode dizer que estava em Patmos e também estava em Espírito. Pude compreender que só podemos entender Patmos se estivermos em Espírito. A história contada sem a ótica do Espírito é contraditória e ruma a esmo para o caos. Nela, a dor e o sofrimento tem sempre a última palavra, pois os poderosos e impiedosos sistemas que oprimem e desumanizam as pessoas sempre imperam. Mas quando tudo isto é visto numa dimensão da história da salvação, o enredo se altera. Passamos a entender que o que se nos apresenta diante dos nosso olhos e é percebido por nosso frágil coração é apenas uma parte da verdadeira história. Na história contada por Aquele que criou todas as coisas e governa tudo com carinho e zelo, os poderosos deste mundo são meros fantoches em suas mãos. As contradições são como linhas que se entrecruzam para formar uma bela tapeçaria confeccionada pelas mãos do Deus misericordioso e, ao final, tudo convergirá para o desfecho que Ele tem para o mundo. João diz que isso é possível e que não precisamos nem temer nem fugir à luta, porque Deus tem aqueles que ele ama como estrelas em sua mão direita. E da mão deste Deus não ha poderes que possam arrancar um filho sequer.
Bem, agora tive mesmo que parar a leitura. Os olhos embaçaram de alegria e emoção diante daquelas descobertas maravilhosas. Era preciso digerir e usufruir daquelas imagens, sabendo que não estou só em minha luta contra os poderes deste mundo. Vale a pena perseverar na denúncia contra toda e qualquer forma de desumanização, pois esta causa não é primeiramente nossa, mas daquele que nos criou.
Agradeci a Deus por aquele envelope ter chegado às minhas mãos naquele dia...
AFA Neto
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