terça-feira, 18 de outubro de 2016
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
FUNDAMENTALISTAS: Os Nossos e os Deles.
A adesão à cultura da superficialidade cobra de nós um preço indigesto. Confundimos as partes com o todo. Tomamos Baghdadi (autodenominado Califa do EI) como sinônimo de Islão, Wahhabistas e Salafistas como sinônimos de Muçulmanos e o próprio EI como a totalidade do Islamismo. Não nos damos as trabalho de compreender, ainda que minimamente, que estas pessoas, seus movimentos e sua ideologia sequestram a religião e buscam nela legitimação para a violência. A mesma lógica, aliás, que sempre norteou cristãos, budistas, xintoístas, e tantas expressões religiosas quanto nossos dicionários de religião forem capazes de catalogar. Mas para nós ocidentais cristãos parece que é conveniente tal confusão. Afinal, é mais fácil dividir o mundo entre nós e eles do que pensar seriamente na complexidade das relações interpessoais e o papel que a religião exerce em tais relações. Somos do bem e eles são do mal. Simples assim!
Simples, burro e perverso.
Esse "show" de horrores que temos presenciado ultimamente não é, nem de longe, expressão do que representa o verdadeiro Islamismo. Pelo contrário, é a mais clara negação dos princípios do Islã. Da mesma forma que as fogueiras das Inquisições católicas e protestantes de ontem e de hoje não representam o verdadeiro cristianismo que deve se pautar pela prática e pelas palavras de Jesus. A maldade endêmica do ser humano vai se manifestar com ou sem religião, mas quase sempre ela busca legitimação religiosa. E quando isso acontece não podemos condenar a religião em decorrência da farsa daqueles que a professam.
Para não alongar mais, cabe a cada um o exercício básico de conhecer melhor esses movimentos e perceber as terríveis semelhanças entre nós e eles. Para surpresa de alguns, constataremos que somos muito parecidos nos acertos e nos desacertos do que desejaríamos.
E fica o alerta: temos nossos Wahhabistas e Salafistas com outros nomes. Todos eles com a bandeira da volta aos fundamentos da verdadeira e pura fé dos fundadores como antídoto contra a apostasia dos infiéis. Olha um pouco à sua volta e você verá que nossa fábrica de Baghdadis, Saddams e Osamas, não deixa nada a desejar aos radicais do deserto.
Afa Neto
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
OS "DESMANDAMENTOS"
Eu relutei em falar algo, mas até hoje esse troço da cena da novela que apresenta a abertura do Mar Vermelho insiste em aparecer aqui no face. Desde aqueles que festejam o efêmero momento de perda da liderança no Ibope da Rede Globo até aqueles que veem no episódio uma epifania, o assunto continua vivo. Eu que fiquei alheio à trama desde o início e que estava fora da galáxia na noite que o capítulo foi ao ar, fui bombardeado pelos comentários virtuais e factuais. O fato é que a história se repete. A criatura ganha vida própria e redefine o criador.
Alguns exemplos recentes do fenômeno: Quando a série de livros do Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins "Deixados para Trás" chegou às livrarias e, mais tarde, quando ganhou as telas do cinema, mesmo advertindo sobre o caráter ficcional da trama, as pessoas passaram a modelar sua escatologia em função do que assistiram e não do que o texto bíblico falava. Até reformado (que via de regra não crê em arrebatamento) virou fã de carteirinha do Darby (pelo menos na prática). Hoje é curioso: numa igreja presbiteriana só o ministro (alguns, como eu, é claro) não acredita no conceito, mas todos os fiéis aguardam o tal arrebatamento.
O mesmo podemos falar sobre o celebrado livro do Frank Peretti "Este Mundo Tenebroso" (este eu li). De repente o mundo paralelo dos seres espirituais invadiu nosso cotidiano e passamos a enxergar "alem do alcance". Foi estabelecido um roteiro para as ações dos seres espirituais, uma hierarquia bem definida com patentes e postos nomeados meticulosamente. Alguns eram capazes de sentir o sufocante odor dos gases sulfurosos que emanam das narinas do capeta. A Bíblia? É um detalhe. A imaginação do Peretti é mais emocionante!!!
Pois bem, com a novela do Edir o fenômeno voltou a acontecer. A narrativa do livro do Êxodo foi relida pela trama, quando se esperava que o contrário acontecesse. Nada contra as adaptações de narrativas bíblicas; até gosto (desde que bem feitas e com inteligência). Gostei, por exemplo, de "A Última Tentação de Cristo" dirigido pelo Martim Scorcese e do musical "Jesus Cristo Superstar" (apenas para citar 2). O problema surge quando não conseguimos fazer a distinção entre a ficção e a realidade.
Por via das dúvidas vou tentar fazer um intensivão para poder responder às dúvidas das ovelhas sobre o destino de Nefertari, sua relação afetiva com Moisés e seu dilema familiar.
Alguém, por favor, me arrume uma Bíblia da que o autor da novela usou, porque as que eu tenho são pobrezinhas em detalhes sobre o acontecido.
Afa Neto
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
A DOR DA DIFERENÇA
Acabei de (re)ler um texto do Rubem Alves via Gladir Da Silva Cabral e, como sempre, foi uma experiência (...) Parei, pensei, pensei... e a palavra não me chegou. Mas daquele banquete, uma guloseima me chamou atenção de modo especial. A parte onde ele conta como se deu conta, pela primeira vez, que era protestante. Descobre isso porque se viu diferente. Num primeiro momento essa sensação lhe causava um misto de medo e vergonha. Depois se transformaria em orgulho.
Pois bem, ouvi desde sempre, nos arraiais protestantes que deveríamos ser diferentes. No início, a exemplo de todos os protestantes da minha geração, eu fiz desse mote o meu objetivo. E não é necessário dizer que o máximo que conseguimos foi uma certa aura de esquisitice pela nossa postura anti-social.
Com o tempo descobri que "ser diferente" não é uma realidade que se constrói, mas uma condição na qual você se descobre. Às vezes até se reluta contra ela ou dela tenta fugir, mas não tem rota de fuga. Às vezes nos pomos a procurar outros "diferentes" na tentativa de se criar uma comunidade de diferentes/iguais, com o objetivo de vencer a solidão. Tudo em vão. Quem é diferente está destinado a ser só. É verdade que aqui e ali encontramos outro anacoreta existencial, mas na maior parte do tempo a condição da diferença impõe sobre aquele que tem o seu signo o viver solitário.
Mas, porque essa reminiscência do Rubem me tocou especialmente? Primeiro porque desde muito me encontrei diferente. E só Deus sabe o quanto lutei em vão contra essa condição e o quanto ela me impôs dores e sofrimentos. Quanta vezes ensaiei um processo de adequação e prometi para mim mesmo e para pessoas queridas que desta vez era pra valer! Já fui, sem nunca ter sido, ortodoxo, liberal, pentecostal, tradicional, progressista, anarquista e tantas outras coisas que esses e outros rótulos poderiam sugerir. Em cada tentativa havia muita sinceridade e um desejo intenso de exorcizar esse espírito inquieto que habita em mim e que, por fim, sou eu.
Lembrei da canção do Zeca Baleiro que diz assim: "eu não sou cristão, eu não sou ateu, não sou japa não sou chicano, não sou europeu, eu não sou negão, eu não sou judeu, não sou do samba nem sou do rock, minha tribo sou eu". Claro que os rótulos evocados pelo compositor não refletem minha fala, mas o espírito que emerge da poesia me é bem familiar. Como me definir neste caldeirão de rótulos que temos hoje? Cristão como Bolsonaro e o bispo Robert Finn que omitiu informações sobre casos de pedofilia envolvendo sacerdotes subordinados a ele? Evangélico como Eduardo Cunha e Silas Malafaia? Progressista como esses que se locupletaram e se corromperam no poder? Liberal (economicamente) como esses que tem o passado como testemunha da falácia do discurso presente?
Poderia passar o dia inteiro mencionando tribos e mostrando minha inadequação, mas seria pura perda de tempo. Como disse o Rubem Alves no texto citado, sou um pouco de tudo que já fui; ou melhor, que tentei ser. Mas sinto que o "não ser" ocupa um maior espaço dentro em mim. Talvez fosse mais fácil me definir na negação, mas isso também pouco ou nada ajudaria. O fato é que sou diferente. E antes de dizer isso com aquele ufanismo que fui ensinado a dizer na adolescência, falo com resignação. Não tenho do que me ufanar, afinal essa condição não me torna melhor que ninguém, só descreve a minha sina e impõe os limites da minha caminhada.
Att. E antes que vc se arvore a pensar neste texto como um desabafo e queira me dar conselhos, eu te imploro: guarde-os para uma outra ocasião e para uma outra pessoa. Essa que fala aprendeu a se mover neste universo da inadequação com relativa desenvoltura e até consegue ser feliz.
Afa Neto
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
ENTRE O FAZER E O SER
O verso acima nasceu de uma homilia que proferi ontem à noite e o Rodolfo, como sempre, foi preciso e sensível ao traduzir prosa em poesia. A verdade transformada em slogan, em questão, é a parte final do verso 15 do capítulo 24 do livro bíblico de Josué: "Eu e a minha casa serviremos ao Senhor". Repetimos isso aos borbotões e, como consequência, descolamos a declaração do seu contexto.
O momento é grave e a tal declaração está encrustada numa narrativa cheia de confrontação. O povo de Israel, depois de assentado em Canaã, tem que conviver com a pluralidade e para tal, era necessário uma atitude decidida por parte do povo sobre que caminho seguir em seu projeto de espiritualidade. Isso se traduz no ultimato de Josué no início do verso 15 "Escolham hoje a quem irão servir; se aos deuses dos seus antepassados... ou aos deuses dos amorreus...". Em contexto de pluralidade a grande sabedoria está em saber fazer as escolhas certas. Não dá para se ter tudo o que está disponível. A vida já nos ensinou sobejamente essa verdade.
Depois da profissão de fé da Josué em seu nome e de seu clã, o povo adere vigorosamente. É aí que a narrativa ganha contornos inusitados. Para quem esperava um Josué eufórico pela adesão fácil do povo que comandava, surge a grande surpresa. O líder do povo começa um processo de confrontação que beira o desestímulo. Na contramão das promessas de facilidades vendidas por líderes religiosos em todos os tempos, principalmente o nosso, Josué prefere falar das dificuldades que aguardam todo aquele que se habilita ao serviço ao Senhor. E isso por um motivo simples: servir ao Senhor não é uma coisa fútil, que se possa fazer de maneira irrefletida e sem consciência das suas implicações.
Mas como o texto está ficando longo, deixa eu ir direto ao ponto. A partir do verso 16 até o 24 nós vamos assistir uma contraposição de motivos/razões para servirmos a Deus. O povo decide servir a Deus por toda uma história passada do FAZER de Deus na vida deles e dos seus antepassados. As mesmas razões alegadas por todos nós quando falamos do que nos levou a servir ao Senhor. Para surpresa nossa, Josué desqualifica esta justificativa. Depois do longo, belo e empolgante discurso do povo, o líder declara sem rodeios: "Vocês não têm condições de servir ao Senhor" (verso19). E imediatamente complementa sua reprimenda: "Ele é Deus santo! É Deus zeloso! Ele não perdoará a rebelião e o pecado de vocês".
Noutras palavras, a única razão que justifica um serviço a Deus que não sucumba diante das adversidades ou da mudança das eras é o SER de Deus. Ou seja, não é pelo que Deus fez ou faz, mas pelo que Ele É. O Deus que libertou do cativeiro egípcio foi mesmo que mandou esse mesmo povo para o cativeiro babilônico. O que cura é o mesmo que não decide curar, o que abre a porta de emprego é o mesmo que visita o desempregado, o que une um homem e uma mulher é o mesmo que vê o fim de um casamento. Se a melhor razão que temos para servir a Deus for sua utilidade, então certamente cambalearemos entre as opções de divindades do mercado do utilitarismo.
A alternativa de Josué é servir ao Deus Santo, Zeloso e Fiel. Nunca houve nem haverá um dia em que esse Deus deixe de ser santo, zeloso ou fiel. Portanto, se essas forem as nossas razões, sempre as teremos.
Afa Neto
segunda-feira, 27 de julho de 2015
LIÇÃO (nem tanto) DESPRENTENCIOSA DE HERMENÊUTICA.
Um dos grandes prejuízos em nossa aproximação das Sagradas Escrituras é perder de vista que, mesmo sendo Palavra de Deus, ela sempre será um texto. Um texto que foi produzido por autores, algum tempo depois dos fatos ocorridos (em geral, muito tempo) e, como é próprio de todo texto, existe uma intenção por parte de quem escreveu. Até aqui, tudo bem. Mas aí vem um detalhe que escapa à maioria: A intenção não é informar, mas formar; não é jornalístico, mas catequético. Quem escreveu, o fez de uma maneira que pudesse redirecionar as perspectivas, os valores e o modo de viver dos seus leitores/ouvintes. E aqui já está insinuado o tal prejuízo supracitado.
Quem lê a Bíblia para se informar está em completa dissonância com seus autores (ou O seu Autor). Disso decorrem disputas virulentas, descabidas e, porque não dizer, ridículas sobre alegada exatidão científica ou histórica. Dessa postura "consumidor de notícias" que prevalece hoje no leitor da Bíblia, também decorre essa superficialidade no viver cristão. Que lê para se informar não se sente compelido a pautar sua vida de acordo com o que leu. Sabe o que não sabia, alimentou seu banco de dados com novas informações e, pronto. Levanta-se da poltrona e vai tocar a vida como sempre fez. Não é assim que fazemos com as notícias que nos chegam diariamente?
Por outro lado, quem se aproxima do Texto Sagrado desnudo de convicções e aberto à confrontação se alinha ao seu propósito. Não há curiosidade em descobrir, e sim determinação em praticar. Não exclama: "caramba, não sabia disso!!" ou "nunca tinha percebido isso!!". A menos que essas expressões sejam apenas o prelúdio para o que se requer do leitor: "meu Deus, quão distante estou disso. Como faço para viver assim?!!"
Bem, agora é colocar as coisas em seus devidos lugares. Os jornais, os portais de notícias, os blogs, os artigos científicos e este post que lês, te informam. A Palavra de Deus, se bem compreendida e levada a sério, te forma.
Afa Neto
segunda-feira, 18 de maio de 2015
EXCEÇÕES QUE VIRAM REGRAS
Exceções viram regras. Acontece com relativa frequência na história. E toda vez que acontece causa muito desconforto e demanda muita habilidade para saber lidar com a nova realidade.
Exceções são tratadas com concessões; regras fazem concessões. Os atores ainda existem, mas os sujeitos mudam.
Lá no capítulo 15 do livro de Atos dos Apóstolos tem um relato sobre uma dessas viradas da história. O cristianismo judeu, que era a regra, percebe que o cristianismo gentio, que era a exceção, já não podia mais ser tratado como tal. As conversões de Cornélio e do eunuco ficaram para trás como fatores inusitados e "pontos fora da curva". As tais adesões de não judeus às Boas Novas anunciadas pelos discípulos começaram a pipocar em todo canto do império romano a tal ponto que tinha ilhado o núcleo judeu inicial. A exceção agora passava a ser a existência de um judeu cristão e não de um gentio cristão. A partir daí todo um arranjo precisou ser alinhavado para fazer frente à nova realidade.
Os critérios validadores da experiência do sagrado são revistos. Não mais os aspectos externos e estéticos da circuncisão, dos trajes, etc; mas a subjetiva e íntima presença do Espírito Santo na vida das pessoas. "Eles receberam o Espírito Santo assim como nós" disse o apóstolo Pedro naquela que seria sua última cena protagonizada no relato de Lucas.
Nada da visão simplista, reducionista e, portanto, preconceituosa do "nós" e "eles" que faz de mim e da minha visão de mundo o cânon da verdade. Quem pensa como eu penso é do bem, quem pensa diferente é do mal; quem está comigo é de Deus, quem está contra mim é do diabo. A fronteira entre o "nós" e "eles" é devassada e agora tudo é Dele.
Tiago, o irmão do Senhor e líder maior na igreja em Jerusalém, recorre às Escrituras judaicas lançando um novo olhar sobre elas. Vê o que ninguém tinha visto, seguindo o exemplo do seu irmão mai velho. Onde a tradição interpretativa via exclusivismo, Tiago enxergou um chamado divino para o acolhimento.
A própria decisão daquele Concílio deixa entrever a tônica da nova realidade. Nem permissividade nem regras amordaçadoras. O que se estabelecia era a difícil, mas imprescindível busca da Liberdade Responsável. As regras do meu arranjo cultural são válidas para mim, não necessariamente para você. E vice-versa. Mas em tudo deve haver o respeito e o cuidado pelo outro.
Antes disso outros momentos testemunharam esse fenômeno e depois dele outros tantos foram vividos. Algo me diz que estamos às portas de um desses momentos...
Afa Neto
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