quinta-feira, 12 de julho de 2018
quarta-feira, 9 de maio de 2018
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
REDIMENSIONANDO A VIDA MATERIAL (Continuação)
Como entender corretamente narrativas como esta do Evangelho de Lucas, nós que existimos numa cultura fundada sobre a hipervalorização da matéria?
Não é tarefa das mais fáceis. A sedução dos bens materiais sempre foi grande em todos os momentos da história. Mas, nas culturas orientais (onde o texto bíblico nasce) a dimensão imaterial da existência tinha o seu lugar na vida cotidiana das pessoas. Hoje, no ocidente, qualquer cultivo da transcendência soa exótico.
Daí a importância de considerarmos esses alertas que o terceiro evangelista põe nos lábios de Jesus a respeito da maneira como lidamos com a vida material.
5. A Hipervalorização da matéria tira de nós a generosidade -16,17,18
Perceba que ao produzir mais do que precisava e poderia armazenar, aquele homem nem cogita a possibilidade de doar.
Deixamos de enxergar outro. Nossas necessidades ganham um tamanho descomunal e no mundo só cabe nosso ego.
Entre os versos 17-19 as expressões eu, meu/minha ocorrem 12vezes.
6. A Hipervalorização da matéria pode desenvolver em nós uma independência em relação a Deus - 19
Quantas vezes confiamos nosso futuro aos bens que amealhamos, à estabilidade do emprego ou à previdência que estamos construindo?
Vamos empurrando Deus cada vez mais para áreas marginais da nossa existência. Esse parece ser um dos efeitos colaterais da tão propalada "emancipação do sujeito".
Deus passa a existir apenas em nossos credos e nos intervalos litúrgicos da vida, pois no restante, nos viramos bem sem ele.
7. A Hipervalorização da matéria rouba de nós a consciência de finitude - 20
Temos prazo de validade. Nossa vida é bem mais curta do que nossos bens sugerem. Quantos de nós juntamos recursos materiais suficientes para três gerações?
A pergunta desconcertante do texto chama nossa atenção para essa dura realidade: "o que tem conseguido, quem há de desfrutar?"
8. A Hipervalorização da matéria torna-nos mendigos espirituais - 21
Vivemos no mundo mais empobrecido espiritualmente da história. Uma abundância de bens materiais (concentrado nas mãos de pouquíssimos - é verdade) contrastando com uma mendicância espiritual que salta aos olhos.
Por mais que tentemos amenizar os ensinamentos de Jesus sobre a riqueza, não podemos fugir de uma equação que perpassa todo o Evangelho: quanto mais ricos materialmente, mais pobres espiritualmente.
Afa Neto
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
REDIMENSIONANDO A VIDA MATERIAL.
"Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (LUCAS 12.20)
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O texto acima, que só pode ser compreendido se lido desde o verso 13 desse mesmo capítulo, adverte para a forma como lidamos com as coisas materiais.
Somos seres também com uma dimensão material, mas precisamos saber lidar com cada dimensão da nossa vida. Caso contrário, perdemos a nossa verdadeira humanidade e o propósito de Deus para nós.
Somos uma sociedade fundada sobre a hipervalorização das coisas materiais.
Criamos os nossos filhos para que estejam supridos das coisas materiais e os ensinamos que ser bem sucedido é ser próspero financeiramente.
Portanto, precisamos prestar atenção aos alertas que esse texto nos faz quanto à forma que lidamos com as coisas materiais.
1. A hipervalorização da matéria separa o que deveria estar unido - 13
A narrativa se inicia com uma pessoa procurando Jesus para que esse arbrite numa demanda com seu irmão. Aqueles que deveriam estar juntos numa rede de solidariedade, afetividade e amparo, estavam em litígio.
Como é comum vermos irmãos brigarem por herança;
Amigos desfazerem sociedade por disputas financeiras;
Casamentos chegarem ao fim por motivos econômicos;
Amizades são construídas por motivos interesseiros para decretarem a falência quando o interesse já não é atendido.
2. A hipervalorização da matéria deturpa o papel de Jesus em nossa vida - 14
Curioso como aquele homem que aborda Jesus o vê como uma espécie de despachante religioso.
Jesus veio para nos reconciliar com Deus e não para nos abençoar materialmente.
Passamos a maior parte da nossa vida tentando usar a fé para atender a questões materiais e efêmeras.
Por conta dessa deturpação já não nos contentamos com a vivência simples da fé.
Por conta dessa deturpação cresce a cada dia o número dos decepcionados com Deus.
3. A hipervalorização da matéria empobrece o ser humano enquanto criação de Deus - 15
A matéria é uma das dimensões da existência e, mesmo tendo sua importância, nunca foi tratada na Palavra de Deus como a principal. Reduzir nossa vida à busca pelos bens materiais nos desumaniza.
O ser humano, criado à imagem de Deus, é uma realidade complexa e fascinante. Ele é físico e espírito, é imanência e transcendência, é ético e estético, etc. Aderir a essa lógica da materialidade pura e simples subtrai do ser humano sua dignidade.
Muitas vezes nos dizemos crentes e espirituais, frequentamos cultos, praticamos rituais e fazemos preces mas, na verdade vivemos como ateus materialistas.
4. A supervalorização da matéria deseduca-nos com relação à abundância -16ss
A narrativa de Lucas transcorre em torno de uma parábola. A história fala de um homem que tem que lidar com uma colheita inesperada e farta. O resultado é que ele se revela incapaz de lidar com aquilo.
Desaprendemos a lidar com o sucesso, com as bençãos que Deus nos dá.
A abundância, que almejamos ansiosamente como solução dos nossos problemas, vira o problema.
Próxima segunda tem a complementação da reflexão. Até lá e que Deus nos abençoe.
Afa Neto
terça-feira, 17 de outubro de 2017
INTIMIDADE X VULGARIDADE
Intimidade é coisa que habita as profundezas. Não haveremos de encontrá-la na superfície. É coisa para mergulhadores treinados ao longo de vários anos. Conhecimento é relativo. É questão de perspectiva. A criança que banha os pés pela primeira vez nas águas do mar, bem como o mergulhador experimentado, podem alegar conhecimento do mar. Mas intimidade é outra coisa.
Não se produz com engenharia estética, por melhor que seja. Desde a apresentadora de programa infantil chamando Deus de “o cara lá de cima”, passando pelo guru que dá “bom dia ao Espírito Santo, até a canção gospel que declara paixão a Jesus com voz sensual, nada disso revela intimidade. Nem mesmo aquela piedade que alardeia as muitas horas gastas em oração, leitura da Bíblia e participação comovente nos serviços litúrgicos, remetem à intimidade.
Intimidade requer reverência, respeito. E por que não dizer, um certo medo que se manifesta como apreensão. É a certeza de se estar diante do sagrado. De que as coisas não são apenas coisas.
É a atração irresistível se misturando com o medo de se aproximar. É Moisés.
É a disponibilidade absoluta para servir se misturando com a certeza de incapacidade para a missão. É Isaías.
É o orgulho incontido por desfrutar da amizade se misturando com a sensação de indignidade. É Pedro.
É a confiança infantil que clama “Aba” se misturando com a consciência de santidade do papai. É o Pai Nosso.
Por isso que a nudez só revela intimidade quando se compreende a dimensão sagrada do corpo. Sem isso o corpo nú será sempre escandaloso e tudo que conseguirá suscitar é reificação e moralismo.
Quanto mais íntimo alguém se torna mais se apodera de nós uma consciência de transcendência. Aquela pessoa não se esgota em suas manifestações perceptíveis. Tem algo nela que escapa à nossa capacidade de definição. Ela traz consigo uma parte de tudo, inclusive de nós mesmos e de Deus.
Para usar uma expressão da sociologia, precisamos de um “reencantamento do mundo”. Trazer de volta o sagrado para habitar o cosmos que Ele criou e de onde foi banido. Enxergar Deus na vastidão do universo astrofísico bem como, em meu “universo particular”. O Deus que habita o temido buraco negro, mas também habita o aconchegante quarto que durmo.
Intimidade é coisa que habita as profundezas: do corpo, da alma, da natureza. É o nome que damos ao encontro com o sagrado. Fora disso, qualquer tentativa de cultivar intimidade vai se degenerar em vulgaridade.
Afa Neto
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
ESSE POVO INCÔMODO?
Generalizações não são apenas burras. São perigosas. E o são porque os beneficiados de hoje serão as vítimas de amanhã.
Falo isso para começar nossa fala sobre o artigo do J. R. Guzzo na última edição da Veja (01/10/17) e as reações a ela. Não há novidade alguma em Guzzo escrever idiotices. A maioria delas celebradas pelos que hoje pedem sua cabeça. O problema dessa vez, é que ele cometeu o erro de mexer com esse grupo, quase que amorfo, a que se convencionou designar de ‘evangélicos’.
O artigo, que tem por título “Esse Povo Incômodo”, desfia um sem números de rótulos negativos para se referir aos ‘evangélicos’. Quase todos perfeitamente aplicáveis a uma parte deles. Na conclusão do artigo vem o golpe final com a declaração de que os tais evangélicos “são um problema sem solução”.
Há tanta coisa para falar sobre o infeliz artigo que demandaria uma série prolongada. Vou me ater a algumas observações.
Primeiro e mais óbvio é aquele a que chamo a atenção no parágrafo inicial do meu texto. Tratar essa parcela da população que optou pela fé cristã à parte do catolicismo como uma coisa única (a generalização a que me referi), é burra, perigosa e conveniente. O protestantismo é uma realidade muito mais complexa do que aparece na análise paupérrima do articulista. Mesmo em se tratando de Brasil, esse fenômeno é muito diverso e plural. Aqui têm ‘evangélicos’ que se posicionam de maneira diferente daquela criticada por Guzzo e que não conseguiria se enxergar nos estereótipos que sobram em seu texto. E eles não são poucos. Só não têm espaço nas grandes mídias, são intelectualmente elitistas e dialogam para dentro.
Segundo, o artigo trata esse grupo “evangélico’ conservador como algo exclusivo do Brasil chegando a citar os EUA como exemplo oposto. Ledo engano (para não falar de desonestidade - o que é muito comum nas matérias da publicação). É exatamente o oposto. Esse grupo que “incomoda” aqui, é a sucursal dos que “incomodam” há muito tempo na terra do Tio Sam. A diferença é que lá a democracia tem mais musculatura e conseguiu termos de convivência toleráveis. Eles latem, mas não mordem.
Terceiro, alguns dos problemas apontados no artigo como racismo, homofobia, machismo, não são exclusividade dos ‘evangélicos’. O atual cenário nos mostra que a sociedade brasileira está infestada de pessoas com visões reducionistas e facistas para além de um grupo específico (vide o MBL). Ademais, alguns dos grupos mais combativos contra essas posturas discriminatórias estão dentro dos arraiais ditos ‘evangélicos’. Gente que, muitas vezes, tem sofrido dentro de denominações ultra conservadoras e outras que integram denominações historicamente progressistas.
Para não tornar o texto ainda maior, vou parar por aqui com mais uma observação: o articulista diz que os ‘evangélicos’ são uma ameaça (contrários) à democracia. Não sei exatamente qual o conceito de democracia do sr. Guzzo, mas entendo que gente como ele e a revista Veja são ameaças mais perigosas à democracia do que qualquer grupo identitário.
Afa Neto
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