
E assim descobrimos que Deus não criou dois mundos diferentes, um mundo bom para os bons e um mundo mau para os maus. O mundo é o mesmo para santos e profanos, justos e injustos, crentes e ateus. A morte que visita o lascivo, chega à casa do piedoso. É verdade que os arranjos sociais amenizam o impacto de certos dramas sobre alguns ao passo que potencializam sobre os menos favorecidos, mas no final das contas, mais cedo ou mais tarde todos teremos que "pagar a conta".
- Acho que sim - disse o profeta. O que vc tem para começar a resolver esse problema?
- Eu não tenho nada além de uma vasilha de azeite.
Mas poderia ser um velho martelo enferrujado, uma panela gasta e rota, um punhado de farinha ou simplesmente um olhar sofrido mas esperançoso. O que se tinha não importava; o que importava mesmo era a disposição para ser parte da solução do problema. De certa maneira, era uma denúncia desse defeito crônico que acomete a todos nós de esperar que a solução venha sempre de terceiros. De achar que as nossas limitações delimitam a nossa participação no embate. Não deixa de ser um comodismo do desesperado.
- Muito bem. É com essa vasilha que começaremos. Volte para casa e procure os seus vizinhos e peça a eles vasilhas emprestadas.
Bem que a solução poderia se limitar a uma relação minha com o sobrenatural. Sem a necessidade de me expor para os outros. Mas aí entre uma lição que não podemos perder: as melhores soluções são sempre coletivas. O emsimesmamento arrogante só sobrevive em Hollywood e na espiritualidade desencarnada dos testemunhos espetáculos de alguns grupos. No mundo real, o outro é imprescindível na construção das minhas soluções.
- Fiz como me ordenaste - falou a viúva ao voltar para prestar relatório ao profeta. Enchi as vasilhas e ao encher a última, o azeite parou de jorrar.
Pronto; agora não falta nada. Deus não tem compromisso com o desperdício ou com a acumulação. Na Bíblia que leio, o Deus que surge das suas páginas é afeito à suficiência, ao necessário. É o Maná que não pode ser guardado, é o pão nosso de cada dia, é a "minha graça" que te basta. O milagre do sobejamente habita o mundo dos que acumularam muito mais do que o suficiente e daqueles que tem inveja desses. No mundo real do Deus real a lógica é:
- Pois bem - retruca o profeta- Agora vende o azeite, paga suas dívidas e com o resto sustenta dignamente teus filhos.
Afa Neto