
(Um parêntese para uma definição) Qualquer dicionário da lingua portuguesa que consultarmos definirá pudor como “sentimento de vergonha, timidez, mal-estar, causado por qualquer coisa capaz de ferir a decência, a modéstia, a inocência”.
Qualquer sociedade tem suas convenções, que muitas vezes são julgadas tabus e outras vezes como ideias salutares na manutenção de uma convivência harmoniosa. Não é fácil estabelecer o que precisa ser deixado para trás e o que deve ser mantido. Isso porque os códigos legais escritos não dão conta de abranger todos os aspectos da vida em sociedade. Por isso que existem “contratos sociais” introjetados no inconsciente coletivo. São códigos de conduta que não estão escritos em nenhuma tábua da lei além da nossa interioridade.
Hoje, "passando os olhos” pelas notícias do dia, me deparo com a informação que um deputado carioca insiste em fazer uma moção de “congratulações e aplausos” aos militares envolvidos na operação que na última quinta (8) deixou 13 mortos. Abro aspas agora para uma fala do deputado para que você entenda o que me faz falar em perda do pudor: “independentemente de qualquer coisa, mesmo que sejam confirmados relatos de moradores afirmando que alguns suspeitos foram mortos a facadas e outros teriam sofrido tortura”, ainda assim ele não desistiria de tal moção.
O fato está longe se ser algo isolado e protagonizado por um aloprado. Alem da figura ser o deputado estadual mais votado no Rio, foi antecedido por outras figuras públicas de maior envergadura com atitudes semelhantes. Basta lembrar os reiterados pronunciamentos em favor da tortura e dos torturadores que temos presenciado nos últimos anos.
Mas essa mentalidade não estaria restrita a algumas figuras públicas? Daria um braço para responder a essa pergunta com um sim, mas infelizmente a ela cabe um veemente NÃO. Em proporções cada vez mais pujantes as pessoas estão exteriorizando aqueles instintos perversos que habitam em todos nós e que deveriam ser mentidos encarcerados em nosso ser. Para o desejo de vingança, a pena de morte; para o instinto violento, a posse de armas; para a minha sede de sangue, o extermínio das milícias; para o sadismo que habita a minha alma, a tortura; para o racismo, a eugenia. Não, não são apenas posturas político-ideológicas, são lógicas que emergem para revelar um pouco do que somos e de como lidamos com isso.
Somos seres em constantes conflitos interiores. Somos imagens e semelhanças de um Deus sumamente bom, mas também somo entes marcados radicalmente pelo mal a que chamo de pecado. Essa é a nossa sina, viver essa existência travando uma guerra radicalmente identitária para definirmos quem prevalecerá, o bem ou o mal, Deus ou o pecado. Aprendi com o apóstolo Paulo que o mal que habita em mim não pode ser domesticado, deve ser combatido. E fazê-lo sem trégua.
Mas o mal real nunca se apresenta mal vestido ou com maquiagem de The Walking Dead. Ele vem com a candura da Hermione, sem contudo ser a menina boazinha interpretada pela Emma Watson. Na verdade, a falta de pudor vem na pele da autenticidade, da sinceridade, da liberdade. Mas um olhar um pouco mais arguto mostrará que, para além desses disfarces, o que encontramos é a ruindade que habita em nós e que está dando sinais de que está ganhando a guerra. Mas ainda dá pra reverter a situação.
Se minha mãe estivesse viva eu diria a ela: “Mãe, você tinha razão em tudo”. Ela, inteligente e perspicaz como era, diria “Filho, as pessoas perderam o pudor. Voce? Ai ai! Veja lá para não entrar nessa onda”.
Afa Neto