
Mas o seu coração nunca conseguiu se sentir em casa em Patmos. Seus pensamentos vagavam entre gente que ele aprendeu a amar e a cuidar nas comunidades que ajudara a organizar no continente. Era lá, nas pequenas igrejas formadas por gente simples e devota, que João gostava de passar seu tempo. Era entre esse povo, ensinando a transformar ensinamentos em sabedoria para ser vivida, que o irmão João se sentia parte da verdadeira história. Aquela história contada por Deus e que muitas vezes nós não conseguimos entender direito. Pois bem, o discípulo amado tinha uma inclinação especial para enxergar aquilo que a dor e o sofrimento faziam desaparecer de diante dos horizontes dos demais. No fundo, ele sabia que fora Deus que o dotara com essa sensibilidade para ajudar o seu povo a ver o que as agruras tinham encoberto. Por isso ele resolveu escrever aquela longa e reveladora carta.
Entretanto ele sabia que precisava usar uma linguagem que fosse fiel aos valores que ele precisava ajudar a preservar. O deus deste século tinha condicionado todos a entender e a valorizar somente coisas que despojam o ser humano de sua plena humanidade conforme criada por Deus. A linguagem era a do consumo e da utilidade e João sabia que isso vai na contra-mão do que ele e o povo precisavam para cruzar esse mar bravio e chegar em paz na outra margem. Então ele resolveu falar com imagens. Ele sabia que a imaginação é mais poderosa do que qualquer compendio de táticas revolucionárias. E foi assim que o discípulo amado mergulhou em um universo onírico usando abundantemente figuras do texto sagrado do povo, conhecido como Antigo Testamento.
Quando comecei a ler, confesso que senti um pouco de dificuldade. Então percebi que estava começando a me tornar refém da divindade deste mundo, pois me afastara dos referenciais que fizeram parte da minha história. Um mar que se abre para libertar um povo sofrido, um Deus que fala como voz de muitas águas, um ser que aparece resplandecente com cabelos brancos como a neve, um Messias que tem uma predileção por ser chamado de Filho do Homem. Meu Deus, onde eu tinha escondido isso dentro em mim? Um lugar ornamentado com candelabros de ouro onde alguém vestido de forma majestosa caminha por entre estes utensílios e um universo repleto de seres estranhos à nossa cultura tecnológica. Parei um pouco atordoado e fiquei em silêncio por um tempo. Depois fiz uma prece e voltei à leitura. De repente as coisas começaram a fazer sentido. Aos poucos percebi que um véu era retirado destas coisas e eu podia olhá-las com clareza. Era a tal Revelação da qual João estava falando.
Pude entender que essa história marcada pela contradição e pelo sofrimento só pode fazer sentido se vista sob a ótica daquela outra história contada por Deus e que só pode ser percebida se estivermos na dimensão do seu Espírito. Por isso o discípulo amado pode dizer que estava em Patmos e também estava em Espírito. Pude compreender que só podemos entender Patmos se estivermos em Espírito. A história contada sem a ótica do Espírito é contraditória e ruma a esmo para o caos. Nela, a dor e o sofrimento tem sempre a última palavra, pois os poderosos e impiedosos sistemas que oprimem e desumanizam as pessoas sempre imperam. Mas quando tudo isto é visto numa dimensão da história da salvação, o enredo se altera. Passamos a entender que o que se nos apresenta diante dos nosso olhos e é percebido por nosso frágil coração é apenas uma parte da verdadeira história. Na história contada por Aquele que criou todas as coisas e governa tudo com carinho e zelo, os poderosos deste mundo são meros fantoches em suas mãos. As contradições são como linhas que se entrecruzam para formar uma bela tapeçaria confeccionada pelas mãos do Deus misericordioso e, ao final, tudo convergirá para o desfecho que Ele tem para o mundo. João diz que isso é possível e que não precisamos nem temer nem fugir à luta, porque Deus tem aqueles que ele ama como estrelas em sua mão direita. E da mão deste Deus não ha poderes que possam arrancar um filho sequer.
Bem, agora tive mesmo que parar a leitura. Os olhos embaçaram de alegria e emoção diante daquelas descobertas maravilhosas. Era preciso digerir e usufruir daquelas imagens, sabendo que não estou só em minha luta contra os poderes deste mundo. Vale a pena perseverar na denúncia contra toda e qualquer forma de desumanização, pois esta causa não é primeiramente nossa, mas daquele que nos criou.
Agradeci a Deus por aquele envelope ter chegado às minhas mãos naquele dia...
AFA Neto
Palavras tocantes. Texto fantásticas. Como sempre sabes usar a poesia para tocar o coração de quem lê os teus textos.
Interessante é que recebi essa mesma mensagem ontem, através da tua pregação.
Como é bom saber que sou uma estrela nas mãos Daquele que me ama e que deu a vida por mim.
Diana