
O ano é 2020; na Arena desportiva Fonte Nova está marcada histórica peleja entre as duas maiores forças do mais contagiante esporte do Estado. Decidindo o campeonato nacional de futebol, pela primeira vez na história, se enfrentam o Tricolor de Aço e o Leão da Barra, um fervente BA-VI em rede mundial, aguardado por todos, sonhado por tantos. Todos os lugares do gigantesco Estádio estão tomados, casa lotada e rigorosamente dividida entre tricolores e rubro-negros que, alucinada e apaixonadamente, cantam, pulam, vibram, enquanto aguardam a entrada em campo dos seus ídolos e heróis. No palco do grande espetáculo, muita cor, muito som, muita animação, muitos interesses, imprensa, polícia, vendedores, autoridades civis, militares e religiosas; milhões (de pessoas e em dinheiro) envolvidos nesse emblemático evento. De repente, lado a lado, entram em campo as duas agremiações, os dois times, seguidos por um séquito de crianças e de repórteres. Alguns dos jogadores, ao se aproximar da linha que marca o início do campo, dão aquela adiantada ou atrasada no passo, a fim de pisar no gramado com o pé direito; outros não se esquecem de fazer o sinal da cruz, e alguns apenas olham para o céu, enquanto fogos de artifício se espocam no ar, aos borbotões, saudando os dois clubes, e uma massa alucinada faz balançar as vigas do Estádio, aos pulos e berros, gritando os nomes de seus jogadores, sacudindo camisas e bandeiras, numa explosão de emoções quase em catarse. Depois das saudações e devoção, como adoradores em um culto, pausa para a execução do hino nacional, com todos perfilados e solenes. Ao final do ato cívico, as duas equipes se posicionam em lados opostos do gramado, esperando que o juiz autorize o ponta-pé inicial. Nesse momento, os goleiros de ambos os times, braços erguidos ao céu, fazem prece fervorosa; um deles deposita ao pé da trave um terço com um crucifixo; o outro, com gestos misteriosos, faz uma mandinga. O camisa cinco de um dos times está quieto no meio do campo, com as mãos postadas às costas, com os dedos cruzados, enquanto seus lábios balbuciam alguma coisa. O atacante do outro lado carrega um pequeno galho de arruda preso ao calção, enquanto o lateral esquerdo se ajoelha com as mãos erguidas ao céu. O camisa 10 de uma das equipes, craque daquele time, parece o mais fervoroso, pois caminha para lá e para cá, com os dedinhos erguidos ao céu, gesticulando ao seu deus, falando coisas em alta voz, com rugas de expressão, quase chorando, até que... priiiiiii! Inicia-se o grande embate. Nas arquibancadas, igualmente, por toda parte, sinais de devoção e rogos aos deuses por uma grande vitória. Alguns assistem à partida, agarrados à grade que separa a torcida dos jogadores, abraçados a uma imagem de um dos seus santos protetores; outros trazem entre as mãos amuletos de bons fluidos, oriundos dos cultos afro; alguns, com as mãos postas à frente da boca, rezam em visível agonia; outros até parecem em transe ou algo do gênero. Dentro do campo, adrenalina a mil, suor e sangue se esvaem. Caneladas, cotoveladas, palavrões grosseiros, uma voadora (golpe de capoeira) aqui, um maegueri (golpe de tae-kwon-do) ali, a mãe de não sei quem pra cá, a avó de não sei quem pra lá, até que: pênalti! Penalidade máxima; bola na marca de cal. Torcedores e jogadores rezam, clamam aos seus deuses: uns para que o cobrador erre o chute, ou o goleiro defenda; outros, para que o atacante seja eficiente, acerte a cobrança e coloque seu time em vantagem. Alguns torcedores, de ambos os clubes, clamam ao mesmo tempo ao mesmo deus, querendo desfechos diferentes. Então, antes que o jogador corra em direção à bola, os deuses entram em campo e disputam o destino dos seus seguidores: “Vai fazer!” “Não, vai errar!” “O goleiro é meu!” “Não, eu é que vou ajudar o goleiro”. No segundo imediato, uma profusão de sentimentos antagônicos inflama as arquibancadas: o jogador escorrega ao chutar a bola, que bate nas duas traves e cai girando em cima da linha. O bandeirinha corre para o meio do campo, mas o juiz não marca o gol. A confusão é geral e a partida é encerrada. A tentativa de manipulação dos deuses não deu certo. Na verdade, Deus, Deus mesmo, a tudo presente, pois a tudo vê, não interferiu na açodada querela, pois estava muito ocupado em uma visita ao Aristides Maltez.
Itamar Bezerra
Pastorzao
O sr eh uma figuraaaa....
SENSACIONAL !!!!
Deus te abencoe e te de graca.
Seu presbitero...
Riu riu riu, olha ai!!!