
A mulher chegou para o marido e lhe perguntou: “Venha cá, por que você não me procura mais? E ele prontamente respondeu: Ora, você não se esconde...”. Talvez você não tenha achado graça; eu achei. Essa é uma daquelas piadinhas infames, rápidas e rasteiras, criadas apenas para curtir com o outro e extrair risadas no meio da rapaziada. Mas vou dar uma de estudante de anatomia, escarafunchar essa idéia e mostrar o quanto ela é verdadeira. Se continuar assim como hoje se vê, aonde vão parar os relacionamentos afetivos, a saúde emocional, o encantamento, a paixão, o romantismo, o suspirar por alguém? A superexposição e a conectividade full-time estão matando um elemento essencial à sobrevivência da alma: a expectativa. O que nos move a todo o tempo é a noção do novo a qualquer momento, é o sonho, a novidade, o incerto, a porta que vai se abrir, a ansiedade natural por algo que está por acontecer. Sem interrogações a nossa vida fica estagnada. Ora, não são os projetos e metas, alvos ainda não alcançados que nos movem para frente? Se eles todos se concretizam não há o que almejar, não há o que se buscar, não há desafios, motivações, frios na barriga, sede de conquista. A existência perde o sentido. Com respeito aos relacionamentos, acontece o mesmo fenômeno. Sem a necessidade da conquista diária, sem desafios, a relação se esfria, cai na mesmice e morre. Antigamente, enviávamos uma carta para a namorada (o), cheios de paixão, e aguardávamos quinze dias para receber a resposta. Quando tomávamos nas mãos o envelope com a cartinha da amada (o), abríamos com tamanha ansiedade, com o coração aos pulos, e líamos sem respirar aquelas palavras de amor. Passávamos dias, semanas e até meses sem poder ver a amada (o), e quando se aproximava o dia do encontro, quanta ansiedade... Faltava sono e não se pensava em outra coisa. Por essa causa, o tal encontro era caríssimo, especial, mágico. As mulheres se preservavam moralmente, como um tesouro raro e caro guardado para um dia especial. Os homens faziam-nas objeto de veneração e juntavam seus dotes para uma conquista inesquecível. Tocar a mão daquele anjo já seria algo apaixonante; sentir de perto o seu perfume era arrebatador; poder tocar de leve os seus lábios era a glória. E, então, sonhar com um dia em que se pudesse desfrutar de todo aquele encanto na intimidade de um quarto era o maior presente que alguém poderia receber. Ainda fazia sentido, literalmente, pedir a mão da moça em casamento. Hoje, a sociedade amoral banalizou tudo, inclusive o sagrado. Perdeu a graça. Jovens se desnudam, se entregam, sem limites, antes de dizer sim; aliás isso nem mesmo importa. Não há segredos, não há reservas, não há preservação nem tabus; está tudo solto, frouxo, disponível, fácil, sem dono, sem preço, sem mistério, sem nada. Conquistar o que? Além do mais, as distâncias foram encurtadas. Não se espera mais dez, quinze dias para receber a resposta de uma carta; fala-se com o outro a todo o momento, com imagem e bom áudio, através de smartfones, tablets e outras plataformas, e pode-se controlar ou monitorar o outro por GPS, e saber onde ele está e o que está fazendo, todos os dias, todas as horas. Como disse anteriormente, a alma humana se alimenta de conquista e se fortalece pelo esforço dessa busca. Todos precisam de uma boa dose diária adrenalina e ansiedade na medida certa, para manter-se motivados. Creio que mesmo os casais já casados precisam buscar fórmulas para se “esconderem” um pouco e deixar o outro salivando, até por estratégia inteligente para sobrevivência da relação. E quanto aos solteiros, que Deus dê juízo e santa esperteza enquanto há tempo, para que se preservem, se valorizem, não entregando pérolas aos porcos, vendendo por nada um tesouro tão raro: sua intimidade. Que as vozes marginais da pressão de grupo não sejam mais altas que o grito da consciência, nem o apelo da sensualidade seja mais vistoso que o dom da pureza.
Itamar Bezerra.