Quando os valores são relativizados, reforçar as regras pode ser o início da escravidão.
Quando tudo parece ser uma farsa, absolutizar verdades particulares sempre desemboca em fundamentalismo.
Quando o futuro se mostra ameaçador, o passado só é o melhor refúgio para os covardes.
Quando o passado deixa de ser mestre, o presente volta a ser incerto.
E assim nos encontramos exatamente num momento da história grassado pela incerteza, a relativização dos valores e a banalização da violência e da sexualidade. E assim nos encontramos num daqueles entroncamentos existenciais, onde as placas não apontam para lugar algum. O que fazer?
Respondo da forma mais simples: Precisamos trilhar a Senda da Santidade.
Isso mesmo! Em tempos como estes precisamos resgatar nosso projeto de trilhar o caminho da Santificação "sem a qual ninguém verá o Senhor".
Mas, que proposta santificadora pode nos colocar de volta ao Caminho? Seria o projeto da religiosidade que impõe um sem número de restrições com a finalidade de transformar nossas vidas em um Calvário existencial? Ou seria a pauta que a sociedade impôs à igreja e que esta se adaptou tão bem (não bebe, não fuma, não brinca carnaval)?
Penso que tudo isso é inútil e incapaz de nos dar uma direção correta. Como também penso que um mergulho indiscriminado e acrítico no modus vivendi desta sociedade consumista, egoista, individualista e pragmática, só tende a reforçar a escravidão e a sensação de desnorteamento.
Proponho a volta ao projeto santificador de Jesus, com todo o seu desconcertante jeito de ser. Santidade que escandaliza nossos mais nobres projetos de pureza. Sim; é a Ele que precisamos voltar.
Tem um texto em particular que me chama atenção. Está lá no Evangelho segundo Marcos no capítulo 2 a partir do verso 15. É o encontro de Jesus com um homem chamado Levi, que doravante passaria a integrar um círculo íntimo ao redor do Mestre. Logo depois de encontrar-se com o Publicano Levi (judeu colaborador do sistema de expoliação perpetrado pelo império romano contra os povos dominados, também conhecido como cobrador de impostos), Jesus vai até sua casa para uma refeição. Lá, o Galileu se encontra em companhia de gente muito mal vista na sociedade de então. Mas também tem gente metida a santa rondando a mesa. E é essa gente que nos ajuda a entender o projeto de santidade proposto por Jesus.
1. É preciso se relacionar com o pecador sem, contudo, compactuar dos seus gestos pecaminosos. E isso por um motivo simples: continuamos todos pecadores inveterados. Não é criando uma redoma que vamos viver de forma santa. Não é cultivando comunidades dos iguais que se cumpre a missão santificadora.
2. É necessário agradar tão somente a Deus e não aos homens. Quando os fariseus manifestaram seu repúdio pela atitude de Jesus, este não negociou suas convicções. Esse papo de ser pautado pelas expectativas que a sociedade tem a respeito dos "crentes" com chavões do tipo "é preciso afastar a aparência do mal" ou "não quero ser escândalo para o Evangelho" é furada. Quero saber o que Deus acha do que faço e não o que as pessoas pensam de mim. Lembre-se: o mais elevado padrão de pureza que a sociedade é capaz de produzir, não passa de trapo de imundície ante a santidade de Deus.
3. Precisamos saber e reafirmar que Pecado é doença espiritual carente de cura. Jesus disse: "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes." Não dá pra brincar com o pecado e nem tampouco promover reducionismos com seu conceito. Pecado não é erro, pecado é doença. Erro se repara, pecado não. Pecado precisa é de cura e esta só pode ser promovida pela Graça de Deus.
4. É mister saber que o pecador atrai a ação misericordiosa de Deus. Nas palavras de Jesus: "Eu não vim para chamar justos, mas pecadores". É fabuloso saber que Deus, na pessoa de Jesus, desceu da sua glória e assumiu nossa precária condição humana por amor a gente pecadora como eu e você. Viveu e pagou o preço por uma vida autêntica por amor a nós pecadores. Morreu como consequência do seu projeto de vida salvadora por amor a pecadores como nós. Ressucitou por amor a pecadores e voltará para abraçar esses mesmos pecadores.
Penso que passa por aí a Senda da Santificação proposta pelo Santo de Deus.
Afa Neto
Nunca tinha pensado no pecado como uma doença. Apesar de ainda não haver lido o livro, acredito ter esse tema uma relação com o "Nascido escravo", de Martinho Lutero. Nesse sentido, a ajuda para a cura do pecado vem de fora. A misericórdia de Deus é o nosso diagnóstico. A graça é a certeza da cura já garantida por Jesus. O tratamento nada mais é do que as etapas do processo (o projeto) de santificação que o professor expõe. E, utilizando um bordão neo-pentecostal que aparece em uma canção do André Valadão: "Só Jesus (que) é o médico dos médicos" pode nos trazer a cura desta enfermidade.