
Os demais seres podem parar por algumas horas ou até dias em companhia do outro ferido, mas, o instinto fala mais alto e ele tem que seguir deixando para trás o companheiro. Entretanto, o ser humano não se contenta com um réquiem. Ele insiste em lutar contra as forças da morte e quer levar junto com ele o seu semelhante. Então, ele não somente pára e lamenta, mas solidariza-se e CUIDA.
Pois bem, esse cuidado, que é uma das marcas distintivas do ser humano, está sofrendo tentativas vorazes dessa sociedade pós-moderna no sentido de sufocá-lo, de suprimí-lo. A banalização da vida, o cotidiano de violência, a espetacularização da tragédia, estão produzindo seres humanos inferiores. E são inferiores porque estão sufocando os apelos constantes da nossa mais básica expressão de humanidade: a capacidade de solidarizar-se e cuidar do outro.
O outro se apresenta de duas maneiras: Como o outro "conhecido" e como o outro "desconhecido". E vejam vocês como a lógica dessa nossa sociedade de mercado soube potencializar essa desumanização para tirar proveito dela. No caso do outro "conhecido", procuramos evitá-lo porque cuidar dele demanda um tempo que eu não tenho, uma paciência que me foi tirada e recursos que preciso canalizar para o meu bem estar. Mas a consciência ainda grita e quer ser ouvida; então, para ajudar a sufocá-la, eu me chafurdo na indústria do entretenimento e ajudo a movimentar a economia. Talvez assim, esse outro possa "merecer", através das suas capacidades, reverter a sua situação (da mesma forma como eu mereci).
O outro "desconhecido", por sua vez, foi transformado no estranho e, como tal, em uma ameaça. E aqui estamos diante de um verdadeiro filão da economia mundial: A paranóia da segurança. Condomínios fechados, circúitos internos de tv, cercas eletrificadas, monitoramento via satélite e uma inteligência orquestrada para gerar o terror. Nesse universo da insegurança o principal vilão é o outro "desconhecido". Mas não se desespere: O terror movimenta a economia.
É preciso ser honesto. Pensar em solidariedade no mundo da economia de livre mercado é um desatino imperdoável deste que vos escreve. O que as pessoas estão sendo ensinadas a crer é que a competição é a solução para os nossos problemas. Vejam esta pérola do tal do Rodrigo Constantino em seu artigo desta semana (articulista da VEJA): "A livre concorrência é o melhor aliado que os consumidores possuem. Quanto mais empresas tiverem de competir para atender à demanda, melhores terão de ser os serviços prestados, e menor terá de ser o preço cobrado. Poder trocar de fornecedor é a arma mais poderosa dos clientes".
O raciocínio parece perfeito. Entretanto é preciso lembrar que uma sociedade é feita, antes de mais nada, de pessoas e não de consumidores/clientes. E não me venham pra cá dizer que são áreas diferentes que nós todos sabemos que não funciona assim. Não há como competir e solidarizer-se ao mesmo tempo. A mesma lógica que impera nas questões econômicas é reproduzida nas relações interpessoais.
Acredito que seja esse o grande desafio que temos: o resgate da COMPAIXÃO. "Nascer de novo" enquanto seres humanos e experimentarmos nossa condição básica e primeva da Solidariedade. De olhar para o outro não como uma ameaça mas, como o companheiro de caminhada nesta existência marcada pelas ambiguidades.
Grande abraço.
Afa Neto
Verdade...
Meu querido pastor e amigo Netão, obrigado por este post.
Muito elucidativo, edificante e desafiador. Que a Graça do nosso Deus e Pai continue a usar teu coração, escrita, voz e violão! Um abração!!!
Meu pastor Iclayber, é um prazer ler um comentário seu em nosso Canteiro. Tudo de bom pra vc também e tenha muitos anos de pastorado, música e amizades sinceras. Abração