
Nossas realizações, coletivas ou individuais, não são apenas transitórias; são também fadadas à deterioração. Por isso é preciso ter o cuidado de não idealizar momentos históricos. Por mais marcantes, revolucionários, libertadores e balizadores que tenham sido. Nem mesmo em seu momento áureo, uma determinada construção histórica está isenta de imperfeições. Isso, é claro, não tira de tal evento seu caráter paradigmático, mas tampouco lhe confere o status de Paraíso perdido. E não precisa ser uma pessoa versada em Ciências Humanas para perceber esse princípio, basta ser um observador atento. Mas, como sabemos, os processos históricos seguem um ritmo temporal diferente da cronologia individual. Enquanto nossa história individual abrange o período de, na melhor das hipóteses, 100 anos; os processos históricos se arrastam por longos séculos e milênios. Portanto, para este último caso precisamos do auxílio da historiografia para que possamos perceber com clareza estes movimentos e poder julgá-los, bem como aprender com eles.
Falo isso motivado por duas leituras me acompanham nestes últimos dias: a primeira é o opúsculo do sacerdote católico chileno Segundo Galilea que tem por título “A Sabedoria do Deserto”. O autor, falecido em 2010, é muito conhecido por aqui como teólogo da libertação, mas neste livro ele se ocupa do resgate de um dos mais curiosos e fecundos movimentos da espiritualidade cristã. Logo depois de Constantino alçar o Cristianismo ao status de religião benquista no Império, uma onda de conversões em massa, somada à relação promíscua entre Igreja e o poder, provocaram deterioração clara na vida cristã da época. Como reação e denúncia e este estado de coisas, homens e algumas poucas mulheres, se retiram da vida urbana para cultivar uma espiritualidade mais centrada na imitatio Christi (imitação de Cristo). Esse movimento ficou conhecido por nós como “Os Padres do Deserto”. Muitas vezes visto como excentricidade, outras como alienação e, ainda outras, como um modelo de piedade reservada a poucos santos despojados das paixões mundanas, essas pessoas eram na verdade, gente como eu e você. Sujeitos às mesmas vicissitudes que visitam todos os mortais eles ousaram viver intensamente aquilo que acreditavam. De quebra nos legaram uma riqueza inigualável de princípios para uma vida piedosa e para a vivência de uma espiritualidade voltada para Deus e para o próximo. Mas com o tempo passou a mostrar os sinais da deterioração que marca todas as construções históricas.
A segunda leitura que faço simultânea à anterior é de um autor irlandês que fez carreira em Oxford como professor de Teologia Histórica (que, tradicional como sou, prefiro chamar de História do Dogma) e hoje ensina no King's College de Londres. O nome dele é Alister McGrath. O livro em tela chama-se “O Pensamento da Reforma” e trata do desenvolvimento histórico/teológico que antecede e se faz presente nesse conhecido movimento do século XVI. Honesto historicamente e engajado teologicamente, McGrath nos apresenta a Reforma por uma ótica que nem a historiografia científica nem a abordagem teológica deram conta de apresentar. A primeira sempre teve a propensão para despir o movimento de seu lastro teológico, tentando explicá-lo como mero resultado de uma conjuntura sócio-política da época. A segunda sempre pendeu para a idealização do evento por tê-lo como evento fundador da fé protestante. Dessa forma, atenuando e, em alguns casos, omitindo inconsistências notórias nos desdobramentos dos fatos. A Reforma Protestante é apresentada como um dos momentos lapidares da história da humanidade mesmo visitada por desacertos. Seria impossível ao Ocidente ser o que é se não fosse a Reforma. Ela continua como uma fonte preciosa de princípios de comprometimento com o Reino de Deus e de desprendimento no serviço cristão. Mas como todo processo histórico apresentou sinais de corrosão.
Poderíamos elencar outros momentos singulares na história tanto para trás quanto para adiante dos eventos mencionados e a abordagem ficaria inalterada. A lição que precisamos aprender, a bem da fidelidade ao princípio da eternidade exclusiva da divindade, é que “O que foi voltará a ser, o que aconteceu, ocorrerá de novo, o que foi feito se fará outra vez; não existe nada de novo debaixo do sol”. Portanto, é preciso saber fazer a devida aproximação dos grandes momentos da historia sem idealizá-los juntamente com seus atores e aprendendo com seus erros e acertos. A perenização de retratos históricos é o caminho mais curto para o a destruição da memória dos grandes movimentos da história bem como para a degeneração da sua herança.
Afa Neto