
Alguns ignoram, viram o rosto e seguem seu caminho cultivando a doce ilusão de ser a imagem idealizada.
Outros são tão negativamente impactados que não suportam o que veem e sucumbem à auto-depreciação permanente. Passam pela vida destilando amarguras e projetando sua feiura em todos que cruzam o seu caminho na tentativa de criar uma confraria dos iguais.
Ainda outros param, encaram o que está diante dos seus olhos, se reconhecem na figura decrépita que miram, não ignoram, mas também não se chafurdam na autocomiseração. Acusam o golpe mas reagem. E o fazem porque descobrem uma outra forma de se ver. Passam a olhar a si mesmos e o mundo ao seu redor pela ótica de Deus. Sabem que são feios. Não têm necessidade de usar maquiagens para se sentirem belos. Para estes tudo que basta é se sentirem aceitos.
Acho que foi isso que aconteceu com Elias. Lá no capítulo dezenove do primeiro livro dos Reis, nos deparamos com um homem que se defrontou consigo mesmo. Viu sua auto-idealização ser destruída. Descobriu-se não o herói que imaginava, mas um ser finito e impotente. E o medo se assenhorou de sua vida. Paralisado pelo encontro com o seu verdadeiro eu, desejou morrer. Mas Deus o visita, o alimenta, pergunta pela sua condição e o comissiona. Numa sentença: Se faz presente. Emanuel.
Elias segue seu caminho. Não é mais o homem que imaginava ser. É feio, e sabe da sua feiura. Mas não importa; é aceito. Aceito por Deus.
Acho que está aí um dos grandes problemas da pregação em nossos dias. Vejo pregadores das mais variadas tendências empreendendo um esforço hercúleo para impedir que as pessoas se encontrem com elas mesmas. Apontam para Deus, sem passar pela etapa do auto-encontro, como se fosse possível uma idealização comparecer na presença da divindade. Aqueles que não evitam o encontro, usam um arsenal de métodos para negar o que veem. É a arte de convencer o feio de que ele é belo.
A Graça não diz que sou belo; diz que sou aceito.
A Graça não usa fotoshop; ela simplesmente acolhe.
Afa Neto