
No geral, a afirmação acima é bastante conhecida. É repetida algumas vezes no próprio livro do Levítico e é retomada pela primeira carta de Pedro. O que, quase sempre, passa despercebida é a expressão “para mim”. E ela faz toda a diferença. Em toda a Escritura vamos encontrar chamados à santidade; em nenhum lugar dela o juiz da nossa santidade é a sociedade, ou a igreja. Mas foi exatamente esse o erro que cometemos desde sempre.
Criamos regras, preceitos e proibições. Inventamos tribunais e neles julgamos e condenamos. Estabelecemos punições e recompensas. Até usamos o nome de Deus, mas o objetivo do nosso projeto de santificação é parecer puros aos olhos do outro.
As culturas e suas expressões vão se multiplicando e com elas nossos preceitos vão assumindo novas e diferentes facetas. Crente não fuma, não bebe, não brinca carnaval e não faz sexo antes do casamento. À medida que o tempo passa algumas regras se afrouxam, outras recrudescem e ainda outras surgem. Dos hassidim, passando pelos fariseus até os santarrões dos nossos dias, o projeto é o mesmo: “sede santos para os outros”.
Aí vem Jesus e propõe o redirecionamento dessa postura tanto em suas falas como, principalmente, em suas atitudes e os santos o rejeitam. Como, ainda hoje, aqueles que dizem seguí-lo o rejeitam. E o fazem de uma forma mais sutil. Reinterpretando sua vida de maneira que subtraia das narrativas o escândalo.
O Jesus das páginas das Escrituras é um; o Jesus proclamado em nossas igrejas é outro bem diferente. O Jesus do Evangelho é concebido em meio à desconcertante notícia da gravidez de sua mãe antes do casamento; o Jesus da igreja foi concebido sobrenaturalmente e só. O Jesus do Evangelho nasceu como peregrino desterrado; o Jesus da igreja nasceu numa aconchegante manjedoura. O Jesus do Evangelho teve como primeiros visitantes pastores (gente de péssima reputação na época) e astrólogos (gente amaldiçoada pela lei mosaica); o Jesus da igreja foi recepcionado na terra por um coral de anjos, por Reis Magos (sic) e só. O Jesus do Evangelho passou por esta vida em companhia de gente desprezada e evitada; o Jesus da igreja viveu aqui na terra como um superstar. O Jesus do Evangelho foi visto pela sociedade na qual viveu como glutão, beberrão, festeiro e especialista em subverter os preceitos de santidade; o Jesus da igreja foi visto pelo mundo da sua época como um santo homem e perfeito acomodado ao status quo. O Jesus do Evangelho terminou os seus dias abandonado pelos amigos, condenado como herege subversivo e morto como malfeitor; o Jesus da igreja terminou sua saga como o grande campeão das multidões. Evangelho e igreja só concordam na proclamação da Ressurreição.
Para os padrões da sociedade de sua época Jesus foi um inveterado pecador; aos olhos de Deus Pai, Jesus foi o único santo que viveu sob o signo da humanidade. E aí reside o grande problema nosso: buscamos a santidade para satisfazer às exigências da sociedade (a igreja inclusive); as expectativas que ela criou a nosso respeito. No dia que aprendermos com Jesus a subverter as expectativas da sociedade a nosso respeito e nos voltar única e exclusivamente para Deus, então, quem sabe, comecaremos a trilhar a SENDA DA SANTIFICAÇÃO sem a qual ninguém verá o Senhor.
Afa Neto