Amanheci com os versos da música do Zeca Baleiro na cabeça. Tem uma explicação: nos últimos dias as pessoas tem me perguntado como me defino em meio aos muitos rótulos disponíveis hoje no mundo cristão. Já fui tachado de tudo nesse meio. De pentecostal a tradicional, de liberal a conservador, de ortodoxo a herege. É incrível como as pessoas necessitam de rótulos para se autenticar ou para autenticar o outro. Ouço muitas vezes coisas do tipo: "Seja mais claro, você é progressista?" ou "Não entendi; você tá falando como um fundamentalista". A impressão que fica é a de que não se é alguém até que você assuma um alinhamento com um determinado sub-grupo. A pessoa só o é na pertença.
A verdade é que os rótulos não revelam. Escondem. É impossível conhecer uma pessoa a partir do estereótipo que grudamos nela. Por um motivo simples: gente é singular, complexa e livre; rótulos são generalizações, paradoxalmente reducionistas e enclausuradores. E o pior, quem passa pelo mundo empunhando etiquetas não consegue escapar da síndrome de julgador. Julga o pertencente ao grupo díspar e julga o membro do seu grupo por achar que ele não se alinha adequadamente ao estatuto da tribo. E quando ele se depara com alguém que não se enquadra em nenhum grupo, entra em parafuso.
Por outro lado, aquele que não se prende a rótulos vive a eterna condenação de ser apátrida. É sempre persona non grata em todo canto.
Eu sou cristão, mas quando olho no retrovisor e vejo as barbaridades cometidas por cristãos, digo: eu não sou isso. Ou quando olho à minha volta e contemplo algumas figuras que reivindicam o rótulo para si, eu me pergunto se vale a pena insistir com o estereótipo.
Então segue minha versão de "Minha tribo sou Eu"
Eu não sou Liberal, eu não sou conservador;
Não sou progressista, não sou tradicional, não sou evangelical.
Não sou ortodoxo, não sou heterodoxo.
Não sou santo nem herege,
Minha tribo é a do Galileu.
Ai ai ai ai ai,
ié ié ié ié ié
Me livra de quem é cacique
Me livra também do pajé.
Afa Neto