
O diálogo, provavelmente, nunca aconteceu nestes termos. O que sabemos é que Inocêncio III e sua corte negaram um pedido de audiência a uma comitiva liderada por Francisco de Assis. Após alguma insistência, foi concedida a tal audiência em outra oportunidade com a condição de que os solicitantes se banhassem e se trocassem para serem recebidos pelo Santo Padre. Após a tal audiência Inocêncio III reconheceria a Ordem dos Frades Menores como uma ordem genuinamente cristã.
O fato é que os dez primeiros versos do capítulo 3 de Atos dos Apóstolos se tornaram emblemáticos para todo e qualquer projeto de espiritualidade cristã. Neles podemos identificar alguns traços imprescindíveis de uma caminhada simples, íntegra, porém poderosa ao lado do Mestre.
Antes de mais nada somos confrontados com a necessidade da BUSCA constante independente de se tratar de figuras conhecidas nos meios cristãos como grandes heróis da fé. O texto fala que Pedro e João subiam ao Templo para um dos períodos de orações diárias dos judeus. Mas em todo o livro somos informados que estes homens mantinham uma rotina diária de cultivo das disciplinas espirituais. Essa ideia de que pessoas especiais e poderosas nascem subitamente em decorrência de uma experiência mística é completamente estranha às Escrituras. Homens e mulheres que desfrutam da proximidade com as coisas do alto, são pessoas que construíram esse alicerce através do cultivo de muito tempo dedicado à oração, à leitura das Escrituras, à comunhão pública, ao jejum, etc.
No momento seguinte temos o relato de uma troca de olhares entre os apóstolos e aquele pedinte que aponta para uma espiritualidade HORIZONTAL. Pedro diz: "olhe para nós". Em seguida o texto relata que o homem "olhou para eles com atenção". É essa capacidade de perceber o outro que tem faltado ao nosso projeto de espiritualidade na sociedade pós-moderna. Quase sempre o nosso mundo é o nosso umbigo e, quando sobra algum tempinho nos voltamos para o alto numa devocionalidade descolada do mundo à nossa volta. Quem busca a Deus de olhos fechados para o outro sempre se deparará com um ídolo. Afinal quem diz que "ama a Deus a quem não vê e odeia a seu irmão a quem vê, é mentiroso".
Para não me alongar mais, vou pontuar um terceiro e último princípio que o texto nos aponta. Na famosa resposta de Pedro ao mendigo está implícita a chave mestra de todo relacionamento com Deus: a DEPENDÊNCIA. "Não possuo nem ouro, nem prata; mas o que tenho, isso te dou 'em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta e anda'". Não tinha o que se esperava dele; e o que ele tinha não era dele, mas de Deus. Se ele tivesses o ouro e a prata aquele mendigo paralítico continuaria naquele estado após a passagem dos apóstolos. Mas graças à pobreza material de Pedro e João, a dependência de Deus sobressaiu e aquele homem foi resgatado da sua condição. Essa busca frenética por melhores condições materiais, quase sempre, esconde uma desconfiança para com a suficiência da graça divina.
Deus nos abençoe.
Afa Neto