
Mas ontem me ocorreu que, num certo sentido, a domesticação do Sagrado pode conter um aspecto positivo. Naturalmente, este aspecto não anula seu oposto já mencionado acima, mas vem acrescentar um significado suplementar a esta expressão. No final do capítulo 2 do livro de Atos dos Apóstolos somos informados que as comunidades cristãs dos primeiros séculos fizeram a transição do Templo para as casas como 'locus' privilegiado do cúlto público. Por isso somos informados que os principais eventos de manifestação do Sagrado relatados naquele livro se deram no contexto da casa.
Àquela altura o Templo já se tornara a imensa gaiola onde fora colocado o Pássaro que aninhou a criação inteira para trazê-la à existência. Depois de engaiolado se iniciou aquele longo processo de subtração das essências característico das domesticações. É preciso fazer o pássaro entender que suas asas tem função meramente estética. O vôo é um uso subversivo e impróprio das asas. Em seguida se mostra para ele que o seu canto é uma extravagância desnecessária, além de esnobismo deplorável. O melhor é ter recato e se limitar a melodias mais sóbrias como um cantochão. Por fim, ensina-se o pássaro que seu périplo alimentício em busca de sementes díspares é prejudicial à sua saúde. O correto é ter uma alimentação balanceada e rica em vitaminas. Portanto, o melhor e baixar a cabeça para comer a ração preparada pelos seus donos. E assim o pássaro que voava para onde queria, cantava a melodia que lhe parecia mais bela e que se lançava alegremente na busca das sementes mais apetitosas da natureza, virou pássaro engaiolado. Agora não era mais necessária a ansiedade pela próxima aparição do pássaro, que ninguém tinha ideia de quando seria. Ele sempre estaria ali. Agora já não era necessária a boa educação dos ouvidos para compreender harmonias mais rebuscadas, o pássaro estava bem alí emitindo sons monocórdios para seus admiradores. Agora não mais se correria o risco de ver o pássaro migrar para lugares distantes e até mesmo "impróprios" comendo e transportando sementes. Ele estava bem alí, obrigado a comer o que os seus admiradores lhe davam.
A este processo descrito metaforicamente acima, podemos dar o nome de Institucionalização do Sagrado. E o Templo é o grande agente catalisador desse movimento. Portanto, não deve ser surpresa para ninguém que a quebra da hegemonia do Templo como lugar de adoração, é algo revolucionário. É a abertura da porta que mantinha o pássaro preso na gaiola. Deus deixa de ser refém dos adoradores que querem ter o monopólio do sagrado e volta a ser o ente livre e soberano que sempre foi.
Mas isto só foi possível através de um processo de Domesticação. E aqui voltamos às elucubrações iniciais. É neste sentido que podemos falar de uma domesticação positiva do Sagrado. Tirar Deus da insipidez da religiosidade templária e restaurar os aromas e os sabores da fé simples que se cultiva nas salas, quartos e cozinhas das casas. É entender que Deus se faz presente nos gestos cotidianos de homens e mulheres pelo mondo afora. Mesmo entendendo que Deus se faz acessível também no Templo, esse mesmo Deus se dá a conhecer em meio ao cheiro de alho refogado, se revela na harmoniosa ou tensa refeição familiar ou se faz presente em meio aos sussurros de prazer e das carícias do casal em momento de amor.
Este é um legado importantíssimo do Pentecostes. Levar Deus para os espaços do cotidiano. Neste sentido, e somente neste, é importante proceder com a domesticação do Sagrado.
Afa Neto