
Os flashes se repetiam em ritmo descompassado prenunciando os estrondos que insistiam em acompanha-los. A cada clarão uma parte do modesto quarto daquele casal, que estava a meio caminho entre os quarenta e cinquenta anos, se deixava ver como se fora uma parte desconectada de um grande vitral. Tudo velho, surrado, conhecido milimetricamente e portador de segredos inauditos e de sussurros comedidos. Mas por um instante, um ínfimo instante, a janela sempre entreaberta pareceu convidativa. Ele levanta, aceita o convite e passa a olhar a rua logo abaixo sendo banhada pela chuva torrencial que caía. Poderia ser a mesma chuva de outros tempos não fora seu estado de espírito diferente de tempos outros. Já não era o mesmo. Na verdade nunca conseguira ser a mesma pessoa nem por dois dias seguidos. Mas agora tinha consciência desta metamorfose dolorosa e desejou ser o que pensou já ter sido sem muita certeza se, de fato, já tinha sido alguma coisa que tenha valido a pena.
Certezas; ah a certeza! artigo de luxo só acessível aos tolos. Ou tolo seria ele por ter perdido a ingenuidade? Por um momento se viu na pele do personagem de "Notas do Subsolo" de Dostoiévski atormentado pela descoberta de sua consciência. Procurou as verdades, mas sabia que todas elas eram as narrativas dos sobreviventes. Daqueles que lograram o êxito de derrotar o diferente e ser agraciado pela longevidade para exterminar os vestígios das heresias.
Desistiu. Virou-se em direção à cama e planejou algumas horas de sono antes de voltar àquilo a que chamava de vida.
Afa Neto