
Ninguém se dá conta da importância de um acorde enquanto ele é executado no tempo certo e na sequência determinada pela melodia. Mas experimente tocar um Sí maior no lugar de um Lá menor numa sequência melódica onde a harmonia foi criada e tocada à exaustão para que naquele exato momento e lugar existisse um Lá menor e não um Sí maior. Até os ouvidos menos afeitos às regras da composição hão de estranhar o acontecido.
Você poderia me dizer: "a beleza está na discrição". Eu até que tenderia a concordar, mas o que me salta mais aos olhos da nossa metáfora musical é uma outra conclusão: “A insignificância está na adequação”. Acho que caminha um pouco por aí o universo da Bossa Nova. Se tivesse que definir este estilo em poucas palavras diria: A Bossa é a precisão do inusitado. É a música se tornando consciente e emancipada. Descobrindo-se ela mesma e não apenas parte de um todo.
Com as pessoas às vezes acontece assim também. Acho que as ciências da alma poderiam tipificar as personalidades a partir de estilos e gêneros musicais. Algo mais ou menos assim…
- Personalidade Axé, Funk, etc; é aquela que cultiva uma alegria alienante. Da pessoa que nunca se deu ao trabalho de pensar no sentido da existência, portanto, acha que a vida é uma festa (de mau gosto; diga-se).
- Personalidade Sertanejo, Arrocha, etc; é aquela que só para pra pensar na vida quando está na fossa sentimental. A vida se resume a relacionamentos frustrados, portanto a melhor maneira de lidar com isso é falar um monte de asneiras no tom mais agudo que se conseguir.
- Personalidade Gospel; é aquela que, via de regra, não deu certo na arena selvagem do mercado fonográfico ou se cansou de ser índio quando queria ser pajé ou cacique e descobriu que existe um monte de trouxa que consome qualquer coisa que seja melodicamente fácil de assimilar, conceitualmente auto-ajuda e com palavras típicas do evangeliquês.
- Personalidade Pop Rock, R&B (os de hoje, é bom que se diga), etc; é aquela que entende a vida como um playground mais ou menos organizado (o "mais ou menos" fica por conta do lugar onde nasce a música, se nos EUA ou no resto do mundo). Quem tá na diversão não tem tempo para pensar na vida, a menos que um brinquedinho dê um defeito ou alguém caia do balanço e se machuque. Não esqueça que nessa personalidade a idade mental nunca passa dos 15 anos, portanto, de vez em quando é bom um escandalozinho para apimentar a vida.
- Personalidade Rock (com suas variações mais pesadas); é aquela que pensa que a vida é um cenário de Mad Max ou o Livro de Eli. Pouca água (então, banho é luxo) e uma raiva incontida de tudo e de todos sem a menor ideia do porquê.
- Personalidade MPB Genérica (aqui se enquadram excelências como Vander Lee, Maria Gadú, Jorge Versillo, etc); é aquela que concluiu a faculdade e acha que já tem condições de escrever um tratado filosófico. Portanto, munida de todo o acúmulo dos anos de barzinho, se entende irmã gêmea de Chicos, Caetanos, Gilbertos, etc.
Poderia continuar falando de outros estilos/personalidades mais complexos e de difícil tipificação, como: MPB Autêntica com suas variações como sambas, ijexás, maracatús, xotes, etc. Poderia falar da personalidade Rock Progressivo e Experimental até chegar numa das personalidades mais augustas como a Pink Floyd. Tudo isso aí é a música em momentos de graça e bem próxima da emancipação. Só não teria condições de falar nada diante da sobre-humana personalidade de João Gilberto. Aí o melhor é me calar.
Vou parar por aqui para poder deixar o espaço necessário para que você, caro leitor, possa tipificar outros gêneros à sua escolha. Fique à vontade e manda ver…
Afa Neto