
Pois bem, ouvi desde sempre, nos arraiais protestantes que deveríamos ser diferentes. No início, a exemplo de todos os protestantes da minha geração, eu fiz desse mote o meu objetivo. E não é necessário dizer que o máximo que conseguimos foi uma certa aura de esquisitice pela nossa postura anti-social.
Com o tempo descobri que "ser diferente" não é uma realidade que se constrói, mas uma condição na qual você se descobre. Às vezes até se reluta contra ela ou dela tenta fugir, mas não tem rota de fuga. Às vezes nos pomos a procurar outros "diferentes" na tentativa de se criar uma comunidade de diferentes/iguais, com o objetivo de vencer a solidão. Tudo em vão. Quem é diferente está destinado a ser só. É verdade que aqui e ali encontramos outro anacoreta existencial, mas na maior parte do tempo a condição da diferença impõe sobre aquele que tem o seu signo o viver solitário.
Mas, porque essa reminiscência do Rubem me tocou especialmente? Primeiro porque desde muito me encontrei diferente. E só Deus sabe o quanto lutei em vão contra essa condição e o quanto ela me impôs dores e sofrimentos. Quanta vezes ensaiei um processo de adequação e prometi para mim mesmo e para pessoas queridas que desta vez era pra valer! Já fui, sem nunca ter sido, ortodoxo, liberal, pentecostal, tradicional, progressista, anarquista e tantas outras coisas que esses e outros rótulos poderiam sugerir. Em cada tentativa havia muita sinceridade e um desejo intenso de exorcizar esse espírito inquieto que habita em mim e que, por fim, sou eu.
Lembrei da canção do Zeca Baleiro que diz assim: "eu não sou cristão, eu não sou ateu, não sou japa não sou chicano, não sou europeu, eu não sou negão, eu não sou judeu, não sou do samba nem sou do rock, minha tribo sou eu". Claro que os rótulos evocados pelo compositor não refletem minha fala, mas o espírito que emerge da poesia me é bem familiar. Como me definir neste caldeirão de rótulos que temos hoje? Cristão como Bolsonaro e o bispo Robert Finn que omitiu informações sobre casos de pedofilia envolvendo sacerdotes subordinados a ele? Evangélico como Eduardo Cunha e Silas Malafaia? Progressista como esses que se locupletaram e se corromperam no poder? Liberal (economicamente) como esses que tem o passado como testemunha da falácia do discurso presente?
Poderia passar o dia inteiro mencionando tribos e mostrando minha inadequação, mas seria pura perda de tempo. Como disse o Rubem Alves no texto citado, sou um pouco de tudo que já fui; ou melhor, que tentei ser. Mas sinto que o "não ser" ocupa um maior espaço dentro em mim. Talvez fosse mais fácil me definir na negação, mas isso também pouco ou nada ajudaria. O fato é que sou diferente. E antes de dizer isso com aquele ufanismo que fui ensinado a dizer na adolescência, falo com resignação. Não tenho do que me ufanar, afinal essa condição não me torna melhor que ninguém, só descreve a minha sina e impõe os limites da minha caminhada.
Att. E antes que vc se arvore a pensar neste texto como um desabafo e queira me dar conselhos, eu te imploro: guarde-os para uma outra ocasião e para uma outra pessoa. Essa que fala aprendeu a se mover neste universo da inadequação com relativa desenvoltura e até consegue ser feliz.
Afa Neto