
Sou um profundo admirador da fé católica conforme ela se expressa na cultura popular. Sua capacidade de dialogar com os aspectos culturais e convertê-los em instrumentos didáticos para a apresentação das verdades da fé, sempre me fascinou. De maneira que, quando olhamos para os fiéis, nunca tive qualquer dúvida de que são pessoas que expressam a graça salvadora de nosso Deus. O mesmo diria das demais denominações cristãs. Cada uma com suas peculiaridades, tem apresentado ao mundo modos diferentes de vivenciar a fé em Jesus Cristo.
Portanto meu problema não é com as pessoas que vivenciam a fé lá na ponta e sim com aqueles que se assenhoram dos destinos burocráticos das igrejas.
Vejam o que está acontecendo com a Igreja Católica neste momento. A ferida foi aberta. Escândalos sexuais, intrigas palacianas e lavagem de dinheiro. Tudo no “melhor” estilo da política brasileira. Acontece que se enganam aqueles que pensam que esses males só existiram agora e que estão restritos à igreja católica. Sexo, dinheiro e poder combinados, em doses fartas e mal administrados, sempre geraram perversões horrorosas. A história está aí para nos confirmar tais conclusões. Jogos de poder movidos por pura ganância fazem parte do repertório de maldades de todo e qualquer grupo que se organiza e começa a amealhar dinheiro, bens e privilégios.
Quando se trata de religiões, a Igreja católica se sobressai devido às dimensões que apresenta, contudo esses males são vistos em outros grupos religiosos menores e menos expressivos.
Dizem que o amor é cego, mas acho que essa é uma cegueira inofensiva. Os corredores do poder cegam as pessoas de forma malévola. A ética vai pra o espaço, o pudor ganha contornos de pura hipocrisia e a decência desaparece do vocabulário dessas pessoas. Preocupações com a fé das pessoas e declarações comovidas de zelo pela igreja de Cristo passam a ser meros slogans para ocultar ruindades terríveis. O que se vê na verdade é aperda completa de sinceridade e um amor desmedido por tudo aquilo que o Senhor da Igreja já havia condenado. De servos da igreja passam a se servir dela para o seu bel prazer.
Graças a Deus que quando isso acontece há um abismo entre estas criaturas e a grande massa que professa sua simples fé. As cúpulas já não conseguem dialogar com o povo. Falam línguas diferentes pois seus interesses são diferentes. Vejo muitos se queixando desse abismo entre a cúpula e o fiel, contudo eu o vejo como providência divina. Se assim não fora, esse virus da ganância infectaria a todos.
Mas há o motivo principal deste distanciamento entre quem gere organizacionalmente uma igreja e quem professa sua fé de modo simples e longe dos centros de poder. É que as divindades já não são as mesmas. O deus dos poderosos encastelados nas zonas de poder eclesiastico não é o mesmo Deus daquela mulher simples que caminha para a igreja para prestar culto. O primeiro se alimenta dos instintos mais malévolos do ser humano; enquanto o Segundo transforma ruindades em bondades e acolhe com graça e amor. O primeiro saliva ante a oportunidade do poder; enquando o Segundo se coloca do lado dos maltratados pela vida. O primeiro tece cuidadosamente tramas para galgar os píncaros da glória; enquanto o Segundo resiste às ofertas fáceis de poder.
Os dois já apareceram em vários lugares ao longo das narratívas bíblicas: dialogaram a respeito de Jó e, principalmente, estavam no deserto quando da tentação do Senhor. É sempre assim. O tempo passa, as vestes mudam, os endereços se alteram, mas a essência permanence.
Agora já posso verbalizar minha conclusão: A igreja, enquanto povo que professa a sua fé, é de Deus; mas as pessoas que se ocupam de gerir a máquina com sua engrenagem perversa são do Diabo. E que fique bem claro que me refiro a todas elas. Que incômoda contradição.
AFA Neto
Mais uma vez demonstras sua sabedoria com a decência e o conhecimento de quem realmente conhece o sentimento daqueles(as) que querem uma IGREJA DE DEUS.
Parabéns!