
Há quase um ano atrás (12 de novembro de 2008) o presidente Lula, em visita ao papa Bento XVI, assinou um acordo com o estado do Vaticano que sempre foi mantido em sigilo pela igreja católica. Nem mesmo a imprensa italiana tinha conhecimento dos detalhes desse documento que o Vaticano pretendia (e conseguiu), fosse aceito por países parceiros. O Brasil foi o último a assinar tal acordo e o fez com ressalvas. O documento tramitou no congresso e na última quarta-feira (26.08.09) foi aprovado acompanhado de um projeto de lei para atender à bancada evangélica.
Não pretendo fazer uma análise do documento nem medir as conseqüências desse gesto equivocado do governo e do parlamento brasileiros. Quero manifestar minha estranheza diante de alguns aspectos do processo.
Quero entender porque um acordo deste, que tem repercussões profundas nos rumos da educação brasileira e desdobramentos na relação das igrejas com as questões trabalhistas e tributárias, não foi discutido com a sociedade? Nestes tempos de escândalos financeiros e morais envolvendo líderes religiosos, tal acordo só serve para suscitar mais e mais interrogações.
No que concerne à educação religiosa nas escolas públicas, creio que deixar passar um texto que reza "católico e de outras confissões" é de uma infelicidade monstruosa. Por que essa deferência ao catolicismo num país multicultural e religiosamente plural como o nosso? Será que a experiência malfadada do Rio de Janeiro de Rosinha Garotinho não ensinou nada?
O acordo Brasil-Vaticano prevê também a manutenção de bens culturais da igreja católica, como prédios, acervos e bibliotecas, tudo com recursos do estado. Agora o cidadão, mesmo não professando a religião católica, será obrigado, indiretamente, a bancar o culto da grei de Bento XVI. Tenho medo que daqui a pouco seja obrigatório o uso da fotografia do inquisidor de Roma em templos evangélicos, terreiros de Candomblé, mesquitas mulçumanas, templos hindus, e por aí vai.
Pode parecer exagero, mas, tenho ojeriza a qualquer indício de atrelamento entre religião e estado. Já havíamos superado isso, pelo menos em tese, com a edição do Decreto119-A, de 17 de janeiro de 1890, que instaurou a separação entre a Igreja e o Estado. Uma das grandes conquistas do estado brasileiro diz respeito ao seu caráter laico muito bem retratado na Constituição.
Pelo visto, na quarta-feira, começamos a rasgar a Constituição.
AFA Neto
Não pretendo fazer uma análise do documento nem medir as conseqüências desse gesto equivocado do governo e do parlamento brasileiros. Quero manifestar minha estranheza diante de alguns aspectos do processo.
Quero entender porque um acordo deste, que tem repercussões profundas nos rumos da educação brasileira e desdobramentos na relação das igrejas com as questões trabalhistas e tributárias, não foi discutido com a sociedade? Nestes tempos de escândalos financeiros e morais envolvendo líderes religiosos, tal acordo só serve para suscitar mais e mais interrogações.
No que concerne à educação religiosa nas escolas públicas, creio que deixar passar um texto que reza "católico e de outras confissões" é de uma infelicidade monstruosa. Por que essa deferência ao catolicismo num país multicultural e religiosamente plural como o nosso? Será que a experiência malfadada do Rio de Janeiro de Rosinha Garotinho não ensinou nada?
O acordo Brasil-Vaticano prevê também a manutenção de bens culturais da igreja católica, como prédios, acervos e bibliotecas, tudo com recursos do estado. Agora o cidadão, mesmo não professando a religião católica, será obrigado, indiretamente, a bancar o culto da grei de Bento XVI. Tenho medo que daqui a pouco seja obrigatório o uso da fotografia do inquisidor de Roma em templos evangélicos, terreiros de Candomblé, mesquitas mulçumanas, templos hindus, e por aí vai.
Pode parecer exagero, mas, tenho ojeriza a qualquer indício de atrelamento entre religião e estado. Já havíamos superado isso, pelo menos em tese, com a edição do Decreto119-A, de 17 de janeiro de 1890, que instaurou a separação entre a Igreja e o Estado. Uma das grandes conquistas do estado brasileiro diz respeito ao seu caráter laico muito bem retratado na Constituição.
Pelo visto, na quarta-feira, começamos a rasgar a Constituição.
AFA Neto