
É verdade que o acúmulo de conhecimento e de experiência costuma lançar luzes sobre nossa compreensão das coisas e das pessoas. A mudança de tempo traz consigo desafios antes inexistentes e, portanto, nos induzem a novas ênfases. Esse é um processo que não pode ser ignorado sob pena de se fossilizar e perder o bonde da história. O problema é que quando essa realidade concerne à forma como olhamos os textos antigos, há de se tomar algumas precauções.
Não quero me delongar nesse discurso, pois minha intenção não é fazer uma abordagem acadêmica sobre os caminhos da hermenêutica sagrada. Minha pretensão é, tão somente, manifestar a preocupação que tenho com a forma inescrupulosa e/ou ignorante com que se tem tratado textos e personagens bíblicos na “era da religiosidade vitoriosa”. Não há mais espaço em nossos dias para uma religiosidade que comporta o medo, a derrota, o sofrimento, os tropeços, a tristeza e a indignação.
Fiquei surpreso quando contemplei o choro de algumas pessoas em um pequeno auditório enquanto falava sobre o salmo 13. Por duas vezes tive que interromper a fala para orar e tentar conter um pouco a emotividade que insistia em aflorar. Ao conversar com aquelas pessoas sobre os motivos daquela reação, a resposta não poderia ser mais preocupante: “descobrimos que Deus nos dá o direito de ser gente”. A “religiosidade vitoriosa” tinha roubado daquelas pessoas a humanidade. A libertação veio do fato de que Deus está próximo daqueles que vivem digna e integralmente a sua condição humana.
Essa mesma religiosidade do sucesso transformou Jó no paladino da restituição. Curioso é o fato de que o próprio livro sagrado que retrata a saga do personagem, seja um tratado bem elaborado para combater a religiosidade da retribuição. O livro de Jó foi escrito, dentre outras coisas, para lançar por terra a velha concepção de que nossa piedade e justiça constrangem Deus a nos propiciar vidas tranqüilas. Jó é uma eloqüente proclamação sobre as vicissitudes da vida que afetam a qualquer um independente da sua religião. É também uma proclamação de Boa Nova na medida em que fala de um Deus que manifesta todo o tempo o seu cuidado para com aquele a quem ama.
O problema é como entendemos esse cuidado. No caso de Jó, esse cuidado se manifesta na forma de presença suave e discreta da divindade sem, contudo, isentar o objeto amado das intempéries da existência. Quando chegamos ao final da saga do nosso personagem, aquilo que muitos tem entendido como a ênfase maior do livro, ou seja, a restituição da condição inicial de Jó, não passa de um detalhe do propósito principal: Mostrar que nada nem ninguém é mais importante do que descobrir em Deus seu bem maior.
AFA Neto
Não quero me delongar nesse discurso, pois minha intenção não é fazer uma abordagem acadêmica sobre os caminhos da hermenêutica sagrada. Minha pretensão é, tão somente, manifestar a preocupação que tenho com a forma inescrupulosa e/ou ignorante com que se tem tratado textos e personagens bíblicos na “era da religiosidade vitoriosa”. Não há mais espaço em nossos dias para uma religiosidade que comporta o medo, a derrota, o sofrimento, os tropeços, a tristeza e a indignação.
Fiquei surpreso quando contemplei o choro de algumas pessoas em um pequeno auditório enquanto falava sobre o salmo 13. Por duas vezes tive que interromper a fala para orar e tentar conter um pouco a emotividade que insistia em aflorar. Ao conversar com aquelas pessoas sobre os motivos daquela reação, a resposta não poderia ser mais preocupante: “descobrimos que Deus nos dá o direito de ser gente”. A “religiosidade vitoriosa” tinha roubado daquelas pessoas a humanidade. A libertação veio do fato de que Deus está próximo daqueles que vivem digna e integralmente a sua condição humana.
Essa mesma religiosidade do sucesso transformou Jó no paladino da restituição. Curioso é o fato de que o próprio livro sagrado que retrata a saga do personagem, seja um tratado bem elaborado para combater a religiosidade da retribuição. O livro de Jó foi escrito, dentre outras coisas, para lançar por terra a velha concepção de que nossa piedade e justiça constrangem Deus a nos propiciar vidas tranqüilas. Jó é uma eloqüente proclamação sobre as vicissitudes da vida que afetam a qualquer um independente da sua religião. É também uma proclamação de Boa Nova na medida em que fala de um Deus que manifesta todo o tempo o seu cuidado para com aquele a quem ama.
O problema é como entendemos esse cuidado. No caso de Jó, esse cuidado se manifesta na forma de presença suave e discreta da divindade sem, contudo, isentar o objeto amado das intempéries da existência. Quando chegamos ao final da saga do nosso personagem, aquilo que muitos tem entendido como a ênfase maior do livro, ou seja, a restituição da condição inicial de Jó, não passa de um detalhe do propósito principal: Mostrar que nada nem ninguém é mais importante do que descobrir em Deus seu bem maior.
AFA Neto
Antônio,
Muito bom seu texto.
Além de téologo és poeta, falas com a alma.
Adimiro-te!
Diana