
Falo isso para começar nossa fala sobre o artigo do J. R. Guzzo na última edição da Veja (01/10/17) e as reações a ela. Não há novidade alguma em Guzzo escrever idiotices. A maioria delas celebradas pelos que hoje pedem sua cabeça. O problema dessa vez, é que ele cometeu o erro de mexer com esse grupo, quase que amorfo, a que se convencionou designar de ‘evangélicos’.
O artigo, que tem por título “Esse Povo Incômodo”, desfia um sem números de rótulos negativos para se referir aos ‘evangélicos’. Quase todos perfeitamente aplicáveis a uma parte deles. Na conclusão do artigo vem o golpe final com a declaração de que os tais evangélicos “são um problema sem solução”.
Há tanta coisa para falar sobre o infeliz artigo que demandaria uma série prolongada. Vou me ater a algumas observações.
Primeiro e mais óbvio é aquele a que chamo a atenção no parágrafo inicial do meu texto. Tratar essa parcela da população que optou pela fé cristã à parte do catolicismo como uma coisa única (a generalização a que me referi), é burra, perigosa e conveniente. O protestantismo é uma realidade muito mais complexa do que aparece na análise paupérrima do articulista. Mesmo em se tratando de Brasil, esse fenômeno é muito diverso e plural. Aqui têm ‘evangélicos’ que se posicionam de maneira diferente daquela criticada por Guzzo e que não conseguiria se enxergar nos estereótipos que sobram em seu texto. E eles não são poucos. Só não têm espaço nas grandes mídias, são intelectualmente elitistas e dialogam para dentro.
Segundo, o artigo trata esse grupo “evangélico’ conservador como algo exclusivo do Brasil chegando a citar os EUA como exemplo oposto. Ledo engano (para não falar de desonestidade - o que é muito comum nas matérias da publicação). É exatamente o oposto. Esse grupo que “incomoda” aqui, é a sucursal dos que “incomodam” há muito tempo na terra do Tio Sam. A diferença é que lá a democracia tem mais musculatura e conseguiu termos de convivência toleráveis. Eles latem, mas não mordem.
Terceiro, alguns dos problemas apontados no artigo como racismo, homofobia, machismo, não são exclusividade dos ‘evangélicos’. O atual cenário nos mostra que a sociedade brasileira está infestada de pessoas com visões reducionistas e facistas para além de um grupo específico (vide o MBL). Ademais, alguns dos grupos mais combativos contra essas posturas discriminatórias estão dentro dos arraiais ditos ‘evangélicos’. Gente que, muitas vezes, tem sofrido dentro de denominações ultra conservadoras e outras que integram denominações historicamente progressistas.
Para não tornar o texto ainda maior, vou parar por aqui com mais uma observação: o articulista diz que os ‘evangélicos’ são uma ameaça (contrários) à democracia. Não sei exatamente qual o conceito de democracia do sr. Guzzo, mas entendo que gente como ele e a revista Veja são ameaças mais perigosas à democracia do que qualquer grupo identitário.
Afa Neto
Neto mais uma vez lúcido e com palavras que acertam em cheio o âmago da questão. Que o Eterno continue a usar sua vida como uma farol que ilumina em um meio onde todos estao preocudados com os holofotes voltados para si mesmos. Abraço
Valeu Roberto. Obrigado pelas suas palavras. Abraço grande e continuemos na caminhada.