
Não se produz com engenharia estética, por melhor que seja. Desde a apresentadora de programa infantil chamando Deus de “o cara lá de cima”, passando pelo guru que dá “bom dia ao Espírito Santo, até a canção gospel que declara paixão a Jesus com voz sensual, nada disso revela intimidade. Nem mesmo aquela piedade que alardeia as muitas horas gastas em oração, leitura da Bíblia e participação comovente nos serviços litúrgicos, remetem à intimidade.
Intimidade requer reverência, respeito. E por que não dizer, um certo medo que se manifesta como apreensão. É a certeza de se estar diante do sagrado. De que as coisas não são apenas coisas.
É a atração irresistível se misturando com o medo de se aproximar. É Moisés.
É a disponibilidade absoluta para servir se misturando com a certeza de incapacidade para a missão. É Isaías.
É o orgulho incontido por desfrutar da amizade se misturando com a sensação de indignidade. É Pedro.
É a confiança infantil que clama “Aba” se misturando com a consciência de santidade do papai. É o Pai Nosso.
Por isso que a nudez só revela intimidade quando se compreende a dimensão sagrada do corpo. Sem isso o corpo nú será sempre escandaloso e tudo que conseguirá suscitar é reificação e moralismo.
Quanto mais íntimo alguém se torna mais se apodera de nós uma consciência de transcendência. Aquela pessoa não se esgota em suas manifestações perceptíveis. Tem algo nela que escapa à nossa capacidade de definição. Ela traz consigo uma parte de tudo, inclusive de nós mesmos e de Deus.
Para usar uma expressão da sociologia, precisamos de um “reencantamento do mundo”. Trazer de volta o sagrado para habitar o cosmos que Ele criou e de onde foi banido. Enxergar Deus na vastidão do universo astrofísico bem como, em meu “universo particular”. O Deus que habita o temido buraco negro, mas também habita o aconchegante quarto que durmo.
Intimidade é coisa que habita as profundezas: do corpo, da alma, da natureza. É o nome que damos ao encontro com o sagrado. Fora disso, qualquer tentativa de cultivar intimidade vai se degenerar em vulgaridade.
Afa Neto
Excelente reflexão!