
Já no carro, não temos tempo de, sequer, ligar o som. O trajeto é feito em cinco minutos. Dois semáforos apenas, mas o segundo insiste em estar fechado. É lá que sempre nos deparamos com o rapaz vestido em calças folgadas em estilo gaucho tradicional, empunhando três tochas acesas, prontas para o malabarismo. Faz sua apresentação. Em seguida, com aquele gesto convencional de saudar a platéia, ele cumprimenta seus espectadores protegidos pelos vidros levantados dos seus carros e parte para o faturamento. Como sempre, uns poucos se atrevem a agraciar o “artista” com uma moeda. Meus filhos, no banco traseiro, fazem uma pressão impossível de suportar e lá estou eu baixando o vidro do carro e contemplando o rapaz com umas moedas. Os aplausos que vem da parte de trás do carro me deixa com uma sensação dupla de honra e desonra; de solidariedade e vergonha; de dever cumprido e de omissão, em equações que nunca consegui resolver. Logo-logo as primeiras sensações desaparecem e fico me debatendo com os sentimentos provenientes dos segundos itens das duplas mencionadas.
Nesta luta por equacionar situações como essas, sou constantemente visitado por palavras de amor. Não são sentimentais; são cortantes e inquietantes. A primeira e que determinará todas as outras, vem do Livro Sagrado: “Amar ao próximo como a si mesmo”. Me pergunto: como é isso? Outras palavras arriscam respostas. Freud dizia que amar alguém é sempre um ato de resposta. “Eles o merecem se são tão parecidos comigo de tantas maneiras importantes que neles posso amar a mim mesmo”. Por isso o psicanalista não hesitava em concluir que nada mais contrariava a natureza original do homem quanto o mandamento de amar o próximo. Nesta mesma toada, Rubem Alves dizia que as pessoas funcionavam como espelhos; se nos vemos belos nelas, nós as amamos; caso contrário, nós as odiamos.
Pergunto: como me vejo naqueles “malabaristas do sinal vermelho”?
Vejo-me defraudado em minha humanidade. Não fui criado para isto e não vejo dignidade alguma em estar maltrapilho e malcheiroso, evitado por todos, sem abrigo para mim e minha família e dependendo da complacência dos insensíveis.
Vejo-me traído como cidadão. O poder público tem se mostrado incrivelmente moroso e ineficaz. A sociedade civil tem sido ágil em reivindicar segurança quando suas trincheiras são vazadas, mas não dá a mínima para a minha condição de subcidadão.
Vejo-me omisso como cristão. Meu evangelho se transformou num subproduto do que há de mais execrável nessa sociedade nula de valores e de solidariedade. As igrejas são divãs coletivos para apaziguar as consciências burguesas ou para roubar a indignação do desafortunado, substituindo-a por promessas de bênçãos.
Vejo-me feio e não gosto nem um pouco do que vejo. Vejo-me impotente e me bate uma revolta por isso.
Preciso começar uma caminhada e pretendo começar por uma prece sem me esgotar nela: “Senhor, ensina-me a amar o meu próximo como amo a mim mesmo!” Amém.
AFA Neto
Começar um dia de trabalho e uma semana lendo uma mensagem como esta só nos faz valorizar aquilo que Nosso Pai Celestial nos deu sem nada cobrar, A VIDA.
Mais uma vez... PARABÉNS!!!
Humberto Souto.
"As igrejas são divãs coletivos para apaziguar as consciências burguesas ou para roubar a indignação do desafortunado, substituindo-a por promessas de bênçãos."
Estou tentendo me definir entre a tênue linha de ser diante da Igreja o que a Igreja quer que eu seja, e ser o que eu realmente quero ser; se tento ser eu mesmo; acredito que não terei acetação plena da Igreja; se tento ser o que a Igreja quer que eu seja, sei que não ficarei satisfeito...
Difícil...