
Era uma vez uma vila colorida – a Vila dos homenzinhos coloridos. Como toda vila que se preze, naquilo que se pode esperar de uma comunidade sitiada pelas relações afins, pela proximidade e natureza da atividade cotidiana, essa vila era um fabuloso laboratório de histórias e aventuras, pelas peculiaridades de seus personagens: os homenzinhos coloridos. Pela distinção de sua estrutura interna e a configuração de sua aparência exótica, perante todos os demais moradores das cercanias, que se julgavam “normais”, esses pequenos seres eram sistemática e perenemente observados em seu comportamento, como seres estranhos e incompatíveis com a dinâmica da vida social daquela cidade. Como animais de um circo, ou peixes em um aquário, ou qualquer outro ser em exposição, sujeitos à observação e crivo dos circunstantes, aqueles homenzinhos coloridos viviam o desafio cotidiano de descobrir a melhor maneira de como sair da Vila e interagir com os demais homens daquela cidade – que eram todos cinza – e voltarem vivos para a sua comunidade “estranha”. Quando a comunidade colorida fora descoberta pela civilização cinza, pela estranheza dos seres tão diferentes, muitas hostilidades e agressões foram dirigidas a esses estranhos seres; sempre que um deles saía às ruas, expondo-se e falando de sua natureza dessemelhante à dos demais, era perseguido, maltratado, escorraçado e morto. E foram muitas as retaliações sofridas pelos habitantes da Vila colorida em seus domínios. Como estava claro para os homenzinhos coloridos que aquela aquarela tão bela em que eles viviam era o ideal, e que não se podia comparar à feiúra e opacidade da cidade cinza, decidiram sair em missão para contaminar e dar cores à vida daquela cidade e seus moradores. Coitados! Que dura tarefa encontraram. A natureza interna dos homens cinza não permitia a mudança de cor com facilidade, pois o matiz era muito escuro em sua raiz. Poucos foram os que se deixaram transformar na essência, mudando de cor. E os que assim foram tocados pelo poder regenerador presente miraculosamente nos homens coloridos, esses também não encontraram mais espaço para permanecer na cidade cinza, e tiveram que se mudar para a Vila. Os dias foram se passando e os homenzinhos coloridos começaram a sair em movimentos para “caçar” ou “pescar” homens cinza para a Vila (que foi crescendo e se organizando em bairro e em zona urbana cada vez maior, tomando uma área de grande visibilidade naquela cidade cinza). Os tempos foram se acumulando e as coisas foram se modificando. A comunidade estranha dos homens coloridos, que agora salpicava a cidade de cor, já não causava mais espanto aos cinza, e, com isso, também já não metia mais medo aos coloridos, num sentido oposto. A convivência foi se tornando amistosa e fraterna, e os espaços sociais da cidade cinza foram sendo cedidos e oferecidos graciosamente aos homens coloridos. Esses, para não se verem tão bizarros e destacados em meio a tão pouca luz, passaram a se vestir e se maquiar de cores mais suaves, a fim de serem mais bem aceitos e causarem menos estranheza àqueles que os acolhiam em tão hostil ambiente. Em toda a cidade as cores foram aos poucos se apagando, e a bandeira da guerra foi descerrada para uma convivência partilhada. Em conseqüência disso, por outro lado, os homens cinza passaram a observar melhor a vida dos ex-homens coloridos, e se encantar de alguma forma por aqueles traços curiosos e intrigantes que ainda marcavam de forma sutil os seus agora amigos de convivência. Em ação conseqüente, os homens cinza começaram a se pintar por fora, claro, daquelas cores sóbrias que viam em seus novos amigos, e, assim, a cidade cinza foi banhada ou salpicada de homens coloridos – uns por dentro e por fora, e muitos apenas por fora, e com isso findou-se a história da Vila dos homens coloridos.
Itamar Bezerra.