
Olhar para o texto e inquirir as intenções do seu autor ao situar o momento inaugural da Igreja de Cristo numa ocasião de comemoração de uma das três grandes festas do Judaismo, essa era a proposta. Que universos simbólicos ele pretendia ativar na memória religiosa daquele povo? Três relações eram inevitáveis para o judeu do primeiro século diante daquele fato.
Primeiramente, a festa de Pentecostes era a festa que celebrava o início da colheita de trigo para aquele povo. Isso, por si só, já se reveste de um imenso significado para uma cultura agrária. O mundo daquele povo girava em torno da agricultura e tudo mais ligado a ela. A semente lançada no solo era muito mais que possibilidade de dividendos, era o retomar da vida, era o reinício do ciclo da existência, era uma ousada aposta na capacidade de Deus fazer a natureza gestar uma realidade diferente da que se apresentava. Numa sentença: era a celebração da ESPERANÇA. Pentecostes apontava para o alargamento dos horizontes, para o recobrar do amanhã. Era o momento em que o cabisbaixo ousava levantar a cabeça e mirar o futuro. Pois bem, situando o nascimento da Igreja no Pentecostes, Lucas estava apontando para uma das vocações básicas da comunidade dos santos: o suscitar da capacidade de sonhar. A igreja que nasce do Pentecostes está destinada a ser a comunidade da ESPERANÇA. Esse negativismo que impera na visão do povo em nossa nação não pode encontrar eco naqueles que vivem na caminhada cristã. Apesar de todos os esforços de homens e mulheres para nos arrastar para os porões da existência e nos fazer olhar para a vida como se tudo que nos restasse fosse o vaticínio do caos, a Igreja de Cristo fixa os seus olhos para aquele que lança a semente no solo da existência e derrama chuva para fazer brotar nova vida. O que se espera da Igreja é que ele viva a Esperança em todas as suas dimensões e apesar de.
Num segundo momento, sugeri que o Pentecostes se configurava no imaginário do judeu do primeiro século como o aniversário da entrega da Lei no Sinai. E não temos como desprezar a importância dessa revelação de Deus a Moisés. A Lei passou a ser o agente norteador para aquele povo nos momentos mais difíceis e confusos da sua história. A partir dela era possível medir a fidelidade daquele povo ao seu Deus ou o quanto este mesmo povo havia se distanciado dEle. Pois bem, Lucas, sabedor desse imaginário, se arrisca a centralizar neste acontecimento, não a Lei, mas o ESPÍRITO. A ideia não é de anulação e sim de complementaridade. Se para o povo de Deus até aquele momento a Lei figurava como o único agente balizador, doravante, a Comunidade dos Santos contaria com o próprio Deus na pessoa do seu Espírito Santo como a sua referência maior. O Espírito que traz libertação e liberdade, que traz vida e dinamismo. O Espírito que cuida para que o projeto de Deus não seja reduzido a estereótipos, a conjunto de preceitos a serem observados ou a uma acomodação doutrinária desprovida de fraternidade. O Espírito que não pode ser reduzido a mero agente provocador de catarse coletiva, nem a um capítulo estéril de Teologia Sistemática.
Por fim, não podemos nos esquecer que o Pentecostes passou a nos remeter quase que instintivamente ao evento veterotestamentário de Babel. O que alí se configurou como o memorial da arrogância, da soberba, do desejo de sobrepujar o outro e que culminou com uma desordem e uma confusão provocadas pela confusão das línguas, aqui no Pentecostes o processo é contrário. O Espírito que é derramado no dia de Pentecostes encontra homens e mulheres destruídos em sua auto-suficiência, cansados de tentar com suas próprias forças e fracassarem. Neste momento irrompe sobre eles e a partir deles um fenômeno que os unem e os igualam. De repente, aquilo que estava marcado pelo desencontro se transforma num momento único de confraternização. E preste atenção que o texto observa o espanto de todos nas palavras "não são estes galileus...?". Pois bem, a partir dos mais marginalizados (galileus impuros e toscos na sulista e cosmopolita Jerusalém) há a teofania espetacular e redentora de Babel. Portanto, a Igreja que nasce no Pentecostes nasce com uma vocação para a comunhão, para o respeito às diferenças e para a superação das desigualdades.
E assim a coisa tende a continuar no próximo domingo...
Afa Neto