
Essa frase acima é uma dentre outras "pérolas" cunhadas pela reportagem do UOL Notícias numa reportagem sobre a reação de líderes evangélicos à posição do governo brasileiro sobre o conflito Israel X Palestina (ver link da reportagem ao final). A autora das infelizes palavras é a pastora por nome Jane Silva. Na mesma matéria o articulista chama a atenção para a ligação estreita entre evangélicos e o Estado de Israel que começou nos EUA e se espalhou para outros países, sobretudo Brasil e Nigéria. O artigo ainda lembra que essa não foi uma reação isolada de uma pastora inexpressiva. Ela teve a companhia de um deputado federal (líder da bancada evangélica - Lincoln Portela - MG) e ecoou reclamações recentes de Silas Malafaia, René Terra-Nova e uma infinidade de "irmãozinhos" e "irmãnzinhas" que externaram suas "acuradas" análises da conjuntura sócio-política-teológica no Oriente Médio através das redes sociais. Análises estas, ancoradas no resgate oportunista e indiscriminado da simbologia do Judaismo pelo neopentecostalismo brasileiro e pela teologia da prosperidade.
Mas como isso aqui é facebook e o texto já se tornou longo para os padrões desta rede povoada de seres em busca de frivolidades, selfies e vídeos curtos, vou cometer o erro crasso da economia de palavras num assunto tão complexo. Só quero relembrar alguns conceitos mal usados.
A primeira coisa que precisamos rever é essa interpretação histórico-teológica pobre e fraudulenta que finca as raízes deste conflito no Antigo Testamento e, como consequência, na vontade do próprio Deus. A idéia de que as disputas sangrentas entre Palestinos e Israelenses são o desaguadouro de uma intriga doméstica na cozinha do patriarca Abraão entre sua esposa e sua concubina, é uma manipulação descarada e cínica de uma reminiscência de fé para legitimar a barbárie.
Outro mito que precisamos desfazer é de ordem linguística. Ao longo dos anos foi sendo empreendido uma perspicaz e estratégica fusão de campos semânticos entre as palavras JUDEU, ISRAEL, SEMITA E SIONISTA. Hoje, para a maioria, essas três palavras significam a mesmíssima coisa. Um exemplo claro está na frase que encima esse texto proferido pela pastora Jane e pelo uso incorreto de conceitos bíblicos como o feito por Malafaia em seu mais recente programa ao dizer que "a nação que amaldiçoa Israel também é amaldiçoada" ao comentar a postura do governo brasileiro. Coisas desse tipo desconsidera a complexidade para se definir os conceitos aventados.
Para começar, o termo JUDEU é de longe o de maior complexidade. Definir o que seja um Judeu tem sido assunto de trabalhos acadêmicos vários sem se chegar a um consenso. As vêzes se toma o caminho religioso e os identifica com a fé judaica, outras vêzes opta-se pela definição cultural e os identifica com a ética, os valores e os costumes do judaísmo ou simplesmente busca a definição pelos vínculos biológicos definindo um judeu como um descendente direto ou indireto de um ancestral judeu. Então a melhor forma de entender o que seja um JUDEU é entendendo os outros conceitos.
Vamos agora de ISRAEL. Mesmo usando esse termo para nos referir ao estado/nação bíblica conforme descrita e caracterizada nas páginas do Antigo e do Novo Testamentos; modernamente o uso correto do termo se aplica ao Estado de Israel conforme surgiu a partir de 1946/48. Portanto, israelense, é aquele que tem nacionalidade proveniente do Estado de Israel. Nem todo JUDEU é ISRAELENSE e nem todo ISRAELENSE é JUDEU (mora em Israel, muitos árabes, muçulmanos e cristãos).
SEMITA, é uma palavra que se refere a um grupo linguístico amplo que agrava, dentre outros povos, os judeus e os árabes. A partir da Segunda Guerra o termo ficou quase restrito aos judeus para descrever as atrocidades perpetradas pelos nazistas contra esse povo. Ganhando popularidade assim a expressão Anti-semitismo. Nem todo SEMITA é JUDEU.
Por fim temos a palavra SIONISMO. Esta se refere a um movimento político e filosófico que prega a autonomia do povo judeu para se constituir em um Estado soberano e independente nas terras onde existiu ao antigo reino de Israel. Nem todo JUDEU é SIONISTA e nem todo SIONISTA é JUDEU.
Feitas essas observações, passemos às conclusões: O que está em jogo hoje no Oriente Médio é uma disputa política entre dois povos: PONTO. O pretexto religioso é um artifício sórdido de parte a parte para fomentar o fanatismo. Nossas análises devem se ater aos critérios políticos e humanitários. Não há espaço aqui para a discussão das razões, dos critérios, das reações e da desproporcionalidade dos meios. Se vc for à minha linha do tempo e procurar um pouco mais verá um artigo que compartilhei de autoria de um antropólogo judeu sobre o que está acontecendo, que pode ser muito útil para compreender o momento atual. O que precisamos concluir é que esse discurso que alinha o ser Evangélico a ser defensor do Estado de Israel é miopia conjuntural, incompetência histórica, imprecisão teológica e fanatismo religioso. Ser ANTI-SIONISTA, ainda que entenda que a bandeira do Sionismo é válida não é ser ANTÍ-JUDEU. Ser ANTI-SEMITA é uma aberração que não podemos admitir e equivale sempre a ser ANTI-JUDEU e ANTÍ-ÁRABE. Ser contra as posturas do Estado de Israel nunca foi e nem nunca será ser ANTI-SEMITA, ANTI-JUDEU e nem tampouco estar contra o Povo de Deus.
Agora posso te garantir uma coisa: legitimar as atrocidades que o Estado de Israel está fazendo em ralação ao povo Palestino (com todas as suas falhas que devem ser rechaçadas por todos nós), por quaisquer argumentos que se possa usar, é se colocar na CONTRA-MÃO do que o Deus da paz, justiça e da fraternidade espera do Seu Povo.
Eu que carrego um monte de pecados, não preciso de mais esse para me atormentar.
Afa Neto