
Digo essas coisas a propósito do texto bíblico que está em Atos dos Apóstolos no capítulo 2. Semana passada escrevi sobre o fenômeno em si, mas dessa vez me volto para a primeira metade do discurso do apóstolo Pedro onde ele tenta dialogar com os presentes face a extraordinária manifestação do Espírito Santo. Ele poderia passar diretamente para a parte do discurso onde fala da centralidade de Jesus no projeto de Deus na história, mas entende que seria necessária uma fala sobre o ocorrido, haja visto o povo se aventurar em explicações esdrúxulas. Diante de um fato sem precedentes na história e que fugia totalmente aos referenciais conceptuais de aproximação o povo tentou o que lhe parecia mais razoável: Estão bêbados. Perceba que Pedro não tenta explicar o fenômeno, isso seria impossível e ele bem sabia disso. Suas palavras tentam desconstruir a tese da embriaguez enquanto hipótese explicativa: "esses homens não estão bêbados..., são apenas 9 horas da manhã". Em seguida ele faz algumas reflexões sobre o ocorrido sem, contudo, tentar explicar o fenômeno. Nessa fala reflexiva ele aponta fatos importantes sobre a vida no Espírito que deve caracterizar a Igreja de Cristo.
Primeiramente Pedro traça uma conexão entre o que estava ocorrendo e o fluxo da história da salvação ao apontar para uma profecia do profeta Joel. Sua intenção era dizer que o nascimento daquela comunidade que passou a condição de Igreja não era um acidente ou um ponto fora da curva no fluxo da história; era fruto de um planejamento divino desde antes da fundação do mundo. Enquanto pessoas transformam o discurso de Pedro em pomo de discórdia entre racionalistas e crentes numa discussão estéril sobre a autenticidade dessas palavras ou sobre a autoridade da Bíblia como Palavra de Deus, outras tantas pessoas, induzidas por tais discussões, perdem o importante da narrativa. A questão aqui é que fique claro que a vida sob o signo do Espírito é ideia que nasceu no coração de Deus e no tempo exato se deu a sua irrupção. Não há acasos ou imprevistos no lidar de Deus na história.
Em seguida, o discurso do convertido Cefas aponta para um fato revolucionário e escandalizador para os padrões da época. Ele ousa dizer que a grande novidade de Deus para a concretização do seu projeto (o derramamento do Espírito) tinha como conseqüência imediata a superação dos esquemas de estratificação social. Aqueles grupos esquecidos pelos esquemas sociais da época como crianças (vossos filhos e vossas filhas), escravos (vossos servos e vossas servas), mulheres (note a inclusão do masculino e do feminino nos pares citados), recebem atenção especial de Deus ao derramar o seu próprio Espírito. Há um resgate da dignidade humana a partir dos marginalizados. Em meio àqueles que vivem sob o signo do Espírito deve imperar a absoluta igualdade. Por outro lado, é inconcebível e blasfemo a manutenção dos esquemas que privilegia os afortunados e condena à marginalização os despossuídos deste mundo.
Vem agora uma mensagem de cunho apocalíptico: "Mostrarei maravilhas em cima no céu e sinais em baixo, na terra, sangue, fogo e nuvens de fumaça. O sol se tornará em trevas e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor". Mas não se deixe impressionar pelas imagens; não era essa a intenção de Pedro. O que se pretendia era operar em nós o resgate da criação como liturgia divina. Onde o Espírito se manifesta o Sol deixa de ser apenas uma estrela e volta a ser o luzeiro para iluminar o dia, a Lua deixa de ser apenas um satélite e volta a ser o luzeiro que ilumina a noite, a tempestade deixa de ser apenas um fenômeno climático e meteorológico e volta a ser voz divina. Onde o Espírito se manifesta a criação volta a ser uma bela expressão de amor de Deus para com suas criaturas.
Para finalizar sua reflexão inicial a partir do fenômeno pentecostal Pedro aponta para a vocação maior da Igreja nascente: a proclamação da Salvação. Onde o Espírito de Deus se manifesta as pessoas são chamadas a adentrar no Reino do Filho de Deus. Igreja que vive para si perdeu o dinamismo do Espírito. Igreja que faz da sua existência um projeto de acomodação dos adeptos e esquece que a razão de sua existência é servir o mundo desprezou o Pentecostes e ficou apenas com o Sinai.
Afa Neto