
Falou muito. Li e logo percebi que aquele era um texto para guardar comigo para muitas ocasiões. Fiz uma cópia, dobrei com cuidado e coloquei num dos bolsos da minha mochila e de lá, sai com muita freqüência para ser relido. Uma crônica do Paulo Mendes Campos chamada “Para Maria da Graça” (Ed. Ática – Para Gostar de Ler). No texto, Maria da Graça passa a receber uma porção de conselhos por ocasião dos seus quinze anos. Que bom se toda debutante, antes, durante e depois das festas lessem atentamente essa crônica.
Os conselhos são inspirados no livro “Alice no País das Maravilhas”. A riqueza do texto merece muito mais do que algumas linhas apressadas, portanto, quero lembrar apenas do primeiro conselho: “se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca.” Logo adiante ele arremata: “A realidade, Maria, é louca”. De fato, tentar entender a existência é uma tarefa que muitas vezes nos rouba a suposta sanidade. Nada faz sentido e, se alguma coisa nos parece lógica, certamente fomos nós mesmos que atribuímos sentido a ela. Aliás, essa é a tarefa precípua do ser humano: fazer do mundo e da nossa existência nele uma jornada razoável. Este dilema não afeta outros animais destituídos de racionalidade. Para eles o mundo está posto e seu significado já está em sua programação biológica.
Cá estamos nós nessa busca frenética por encontrar/atribuir sentido a essa odisséia chamada vida. A maioria faz isso pela via religiosa, ainda que ela receba vários nomes e se manifeste de formas as mais variadas. Há as manifestações religiosas tradicionais com seus deuses transcendentes e há também aquelas formas religiosas onde a divindade reside em outros templos (laboratórios, universidades e política). O que eles tem em comum é a entrega devotada às suas crenças e, através delas, fazer do mundo um lócus de significados.
Escrevi essas coisas, mas minha cabeça está na notícia que tive sobre um amigo e colega de sacerdócio. Fiquei sabendo que ele deixou a igreja no último domingo para se juntar à esposa nos cuidados com sua filhinha que aguarda um transplante de medula lá em São Paulo. Ana Maria é herdeira de uma deficiência imunológica o que transforma cada segundo de sua frágil existência numa celabração de vida. Ela está viva e, no momento, isso é tudo o que importa.
O sacerdócio fornecia a única fonte de sobrevivência financeira daquela família, por isso, nos últimos meses eles foram obrigados a agonizar a distância da separação. Ana Maria e Priscila (a mãe) em São Paulo e Aldon (o pai) em Piritiba (BA) no exercício do pastorado. Não sei o que motivou Aldon a deixar o pastorado e se juntar à família, mas posso dizer algo: essa me parece ser a loucura mais sana que ele poderia cometer. Estes pais estão conscientes de que o futuro de Ana Maria, assim como o de todos nós, se dá hoje. Nada de perguntas do tipo: “o que você vai ser quando crescer?”. Ela é e isso basta. É claro que eles desejam e investem num futuro mais dilatado para a filha, mas existe uma realidade presente que precisa ser vivida e não pode estar à sombra de um futuro incerto.
É tudo muito louco e, por vezes, revoltante. Mas, eu com os meus botões olho para tudo isso e ainda sem saber o que dizer, ouço uma voz insistente a me falar: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. Eu não tenho nenhuma dúvida que Aldon e Priscila amam muito a Deus.
Os conselhos são inspirados no livro “Alice no País das Maravilhas”. A riqueza do texto merece muito mais do que algumas linhas apressadas, portanto, quero lembrar apenas do primeiro conselho: “se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca.” Logo adiante ele arremata: “A realidade, Maria, é louca”. De fato, tentar entender a existência é uma tarefa que muitas vezes nos rouba a suposta sanidade. Nada faz sentido e, se alguma coisa nos parece lógica, certamente fomos nós mesmos que atribuímos sentido a ela. Aliás, essa é a tarefa precípua do ser humano: fazer do mundo e da nossa existência nele uma jornada razoável. Este dilema não afeta outros animais destituídos de racionalidade. Para eles o mundo está posto e seu significado já está em sua programação biológica.
Cá estamos nós nessa busca frenética por encontrar/atribuir sentido a essa odisséia chamada vida. A maioria faz isso pela via religiosa, ainda que ela receba vários nomes e se manifeste de formas as mais variadas. Há as manifestações religiosas tradicionais com seus deuses transcendentes e há também aquelas formas religiosas onde a divindade reside em outros templos (laboratórios, universidades e política). O que eles tem em comum é a entrega devotada às suas crenças e, através delas, fazer do mundo um lócus de significados.
Escrevi essas coisas, mas minha cabeça está na notícia que tive sobre um amigo e colega de sacerdócio. Fiquei sabendo que ele deixou a igreja no último domingo para se juntar à esposa nos cuidados com sua filhinha que aguarda um transplante de medula lá em São Paulo. Ana Maria é herdeira de uma deficiência imunológica o que transforma cada segundo de sua frágil existência numa celabração de vida. Ela está viva e, no momento, isso é tudo o que importa.
O sacerdócio fornecia a única fonte de sobrevivência financeira daquela família, por isso, nos últimos meses eles foram obrigados a agonizar a distância da separação. Ana Maria e Priscila (a mãe) em São Paulo e Aldon (o pai) em Piritiba (BA) no exercício do pastorado. Não sei o que motivou Aldon a deixar o pastorado e se juntar à família, mas posso dizer algo: essa me parece ser a loucura mais sana que ele poderia cometer. Estes pais estão conscientes de que o futuro de Ana Maria, assim como o de todos nós, se dá hoje. Nada de perguntas do tipo: “o que você vai ser quando crescer?”. Ela é e isso basta. É claro que eles desejam e investem num futuro mais dilatado para a filha, mas existe uma realidade presente que precisa ser vivida e não pode estar à sombra de um futuro incerto.
É tudo muito louco e, por vezes, revoltante. Mas, eu com os meus botões olho para tudo isso e ainda sem saber o que dizer, ouço uma voz insistente a me falar: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. Eu não tenho nenhuma dúvida que Aldon e Priscila amam muito a Deus.
AFA Neto
O texto nos faz refletir sobre o essencial da vida: o amor às nossas entregas.
Parabéns Antônio. A sua sensibilidade me faz crer que é possível celebrar a vida independente do que nos é externo.
Celebrar a vida é algo à ser aprendido pelos cristãos, principalmente esses que projetam tudo para o céu. Essa semana uma bala perdida encontrou meu jovém sobrinho Reberto. Todos no velório falavam:"Era tão jovem, tanta vida pela frente, tinha tanto futuro" Aldon,celebre todos os momentos com a ana maria, mas faça deles momentos de vida. Netão, aprecio muito seu existêncialismo.
Este texto ressalta para o valor da vida, e faz lembrar que muitas perguntas para determinadas atitudes não tem respostas, mas somente a pessoa que está vivendo a situação sabe o que se passa.Fui ovelha do Pastor Aldon na Igreja do Uruguai, vejo o sofriemnto desse casal,creio que Deus pode honrar e sarar a vida da pequena Aninha.